
Olá gente, por aqui sem muitas novidades blogáveis, exceto pelas ciclísticas!
A semana passada foi de grande atividade sobre duas rodas, tudo com gostinho de despedida.
O tempo anda muito louco por aqui, já era pra estar quente e uma nuvem negra de frio e chuva se instalou na Europa do Norte, como se já não bastasse todo o frio que passamos e a chuva que caiu, isso é realmente algo que me decepciona, mas a madame nature quer assim, quem sou eu pra discordar.
Segunda nem terça passada consegui pedalar, porém vinha de um finde com bastante quilômetros, 87km de ida e volta até a Alemanha, em Nenning, um vilarejo romano,onde tem um sítio arqueológico com um super mosaico cheio de desenhos de crueldades de gladiadores, muito artístico, deve ter demorado décadas para ser feito, mas tenho que admitir que é duro de ver todas as barbaries que faziam pro povo se divertir, o tal de “pão e circo” que aprendemos na escola. Hoje em dia as tele-novelas cumprem esse papel.
Bom, mas era de bike que eu estava falando, não é mesmo?! Fiz esses 87km bem tranquila, a estrada era bonita, sem muuuitas subidas, apesar de uns 20km de chuva foi light. Na última quinta-feira foi feriado aqui, sabia de uma trilha de mtb que teria em Etalle, na Bélgica, a 30km de Longwy. Porém, dessa vez não teria a facilidade da carona dos amigos que iriam pedalar na estrada em Metz.
Decidi que poderia me virar sozinha, já que a distância não era assim tão grande. Pedi pro Allain me mostrar o caminho e na quarta-feira fizemos ida e volta de Etalle, 63km, caminho fácil de se achar, mas tive que prestar muita atenção, pois aquele meu vício de se perder sempre dá um jeito de me fazer andar em círculos.
Quinta-feira despertador tocou cedinho, dei aquela enrolada básica e 7h já estava de pé para a minha aventura em Etalle. De fato, quase me perdi no caminho, mas no fim me achei facinho. Durante o trajeto ví várias pessoas com suas bikes no bagageiro do carro indo pra mesma trilha e eu ali penando com a minha mtb na estrada, deu até vontade de pedir uma caroninha. Depois que a gente se acostuma com uma speed na estrada, com aquelas rodas enormes, é complicado ir pro asfalto com uma mtb, é um “pedala, pedala e não anda”.
Mas enfim, chegando lá já um pouco cansada depois de 31km, fiz a minha inscrição para os 22km, pra não abusar, mas caso a trilha fosse tranquila seguiria adiante nos 35km. O pessoal caprichou, colocou uma largada como nas competições, me senti quase uma atleta (jura!!!!). Entramos na floresta, até então tudo plano, sem subidas nem descidas suicidas como as que peguei em Arlon. Percurso muito agradável, tudo flechadinho, pura curtição. Estava quase nos 20km quando cheguei no “ravito” que é onde paramos pra comer e beber, tudo incluído na minha inscrição de 3 euros, vejam só que maravilha!
Percebi que não estava cansada, muito pelo contrário, não queria que aquela trilha terminasse tão cedo, resolvi ficar para os 35km. Aí é que veio o verdadeiro desafio. O que era plano se transformou em subida, e que subidas, infindáveis. Sobe, sobe, sobe, e barro pra todo lado, já que havia chovido quase toda a semana.
Mesmo que as lombas tenham dado trabalho, foi tudo muito gratificante, cada vez que entro numa dessas trilhas saio com a alma lavada, pedalar na natureza é o que há!!! Cheguei da minha aventura feliz da vida, de volta ao clube de Etalle. Os belgas já estavam todos lá, reunidos brindando com muita cerveja, como sempre. Eu tinha uma carona arranjada com um conhecido dos pedais na estrada, o Franc, um belga super camarada, me encontrei com ele e sua família na confraternização de final de randonnée e garanti minha volta pra Longwy tranquila, sem ter que pedalar mais 30km.
O pessoal como sempre é muito caloroso e acolhedor, esse clube de bikers foi um achado e tanto, as vezes salvam a minha estadia aqui, pois como todos sabem, a Europa é um paraíso quando se está de férias viajando tranquilo, morar são outros quinhentos, nem tudo são rosas.
Sexta foi dia de folga dos pedais, já que sábado teria um casca grossa. Fiquei com a Christelle a manhã toda, a Sophia foi no dentista com a maman, é impressionante como quando ela está sozinha comigo vira um anjinho, quem dera fosse assim sempre. Almoçamos fora, resolvi umas pendências e fechei o dia com uma bela pizza 4 queijos assistindo um dos meus filmes prediletos: into the wild.
Sábado o pedal foi forte, 115km em Luxembourg, com um desnível de 1400 metros, como dizem os franceses: ohlálá!!! esse foi duro. Meus primeiros 100km de bike com subidas que exigiram muito do meu poder mental pra não desistir, aproximadamente 6 horas de pedal num frio dos mais xaropes, embora a paisagem nos recompensasse a cada instante, o pedal pareceu tão longo que eu tinha a impressão que a qualquer momento avistaria a Usina do Gasômetro.
O pior é que me dei conta pela primeira vez que a velha bike de guerra que o Allain me emprestou já se mostrou fraca pra esse tipo de pedal com muito sobe e desce, fazia tanto barulho pra trocar a velocidade que parecia que a correia ia saltar fora, e olha que cuidei pra fazer nos momentos mais precisos possíveis. No fim, completei o percurso sem grande cansaço e com o fator extra de ter a bike mais velha de todos que estavam lá, é assim que se começa! O engraçado é que durante o pedal eu tive momentos de extremo mau-humor, pensando, “onde é que eu fui me meter?” e com pouquíssima paciência pros assuntos intermináveis do Allain, gosta de falar esse francês, mon dieu!
Nas lombas eu ali penando e ele de bla blá blá, desafio para a calma da brasuca aqui! Só tive que largar um “te concentra na subidaaaaa!!!!%@#§”
Foi um belo treinamento, depois desses 115km sem mortos nem feridos nem dores, sei que sou capaz de ir bem longe em cima de uma bike…aliás, falando nisso, se a Nossa senhora das duas rodas bem quiser, em breve estarei partindo para a randonnée do século, veremos!
Pra terminar uma música que traduz bem como me sinto pedalando entre toda essa natureza das selvas belgas!
…
A riqueza dos bolsos vazios


