Vocês sabiam que na Holanda se diz “Oi” pra cumprimentar as pessoas? Nem eu. Embora se escreva “ola” se diz “Oi”, bacana, não? Mas por favor, se forem para a Holanda não saiam dizendo “Oi” pra todos, só para os conhecidos, pois é uma expressão empregada informalmente.
Bom, mas vamos ao que interessa, apesar de ser bem tarde aqui, estou pensando que já enrolei demais para relatar a minha especial estadia na Holanda, no penúltimo final de semana, que aqui foi acompanhado de feriado na segunda-feira. Para provar que a minha vida na Europa não é só nostalgia, como pareceu no último post e para reforçar o comentário da querida Y, que as coisas legais são muito mais numerosas e importantes que as que não são tanto, vou com muito prazer contar a vocês as minhas aventuras na Holanda com a Camila, uma guria “très cool et folle” (muito legal e maluquinha).
Até então eu já tinha visitado a Holanda duas vezes, mas me limitei a Amsterdam, nunca imaginaria que passaria por aquela cidade que eu tanto gosto novamente, pois não é que passei?! Sábado de manhã cedo encontrei com as minhas companheiras de carona em Luxembourg e de lá partimos para Amsterdam. Achei essa “carona” através de um site muito interessante que tem aqui na França de “covoiturage”, traduzindo toscamente: caronagem. Vejam que excitante: Eu estava partindo com meninas que nunca vi na vida para a casa de outra que eu conhecia só pela internet. Mesmo com todas essas surpresas eu estava me sentindo muito tranquila e à vontade. Voltando à história da carona, funciona basicamente assim: Colocamos um anúncio no site pra dizer que estamos saindo de um lugar pra ir pra um outro e temos, por exemplo, 3 lugares no carro. Esse trajeto tem um custo X, que comparado a um trem ou ônibus, muitas vezes é bem mais barato. Não sei por que, mas me sinto tranquila ao fazer isso aqui na Europa, mesmo que fosse com brasileiros, mas no Brasil a coisa muda de figura, espero um dia que a minha opinião mude também.
Éramos 5 no carro, eu, 3 francesas e uma menina do Madagascar (!). Seguimos até Namur para deixar a primeira passageira, a Luise, uma estudante de medicina muito simpática, continuando no clima de encontros com novas pessoas, acabamos entrando no ap da amiga dela pra ir ao banheiro, uma belga que nos recebeu muito calorosamente, mesmo que por poucos minutos e nos convidou para voltarmos quando quiséssemos. Retornamos para o nosso trajeto em direção à Amsterdam, onde eu me encontraria com a Camila para irmos para a cidade onde ela mora, Limmen.
Só não contava com o enorme engarrafamento que pegamos até chegar em Amsterdam, coisa que atrasou a minha chegada em quase 3h, a coitada da Camila ficou lá andando em círculos me esperando. Finalmente cheguei, depois de uma viagem muito longa mas também muito divertida com as minhas companheiras doidas, muita música, relatos engraçadíssimos e aquela empolgação para chegar na Holanda. Nos encontramos, eu e Camila, era como se já nos conhecêssemos, de tanto que já havíamos falado por internet, visto fotos e etc.
Os planos eram de talvez ir pra outra cidade já no sábado, mas a minha viagem de quase um dia inteiro nos impediu, então resolvemos nos munir de garrafas de vinho francês e nos estirarmos num parque à beira de um canal. Ficamos ali curtindo, foi ótimo. Quando começou a entardecer e esfriar fomos para a cidade dela, Limmen. Busão e trem depois, lá estávamos, na casa da família dela, super bonita, finalmente eu estava conhecendo um pouco mais da Holanda, apesar da proximidade com Amsterdam, menos turística e mais real. Mesmo nas cidadezinhas pequenas, todas as ruas para carros são costeadas por ciclovias, normalmente bem mais lotadas que a “estrada” e a calçada de pedestres. O povo de lá realmente tem a bike incorporada em suas vidas a muuuuuuito tempo e eu acho isso simplesmente o máximo.
Jantamos e conheci a família da Camila, muito legais. Só me deu uma agonia de não poder falar com as crianças que só falavam alemão e holandês. Aquela criaturinha loira coisa mais linda tentando se comunicar comigo e eu ali sem entender uma palavra, que coisa!!! Apesar de estarmos um pouco cansadas, tomamos uma ducha, pegamos as bikes e fomos para Alkmaar, uma cidade pertinho dali, para curtirmos uma night.
A Christelle sempre fala que os gigantes existem, é normal, ela é tão pequena que deve pensar que muita gente alta é gigante. Entretanto, tive que comprovar a constatação da baixinha com a minha descoberta que eles existem sim, e são holandeses. Eu já tinha reparado nas outras idas à Amsterdam que as coisas eram muito altas no banheiro, mas não tinha notado a altura deles no meio da turistada. Porém, nessa saída num pub extremamente local, me senti um pigmeu. Sem contar pela bike que peguei pra ir até lá, uma coisa enorme que eu mal alcançava nos pedais e não conseguia guiar, só andar em linha reta, pura adrenalina, minha mountainbike parece uma bicicleta de criança do lado daquela.
Tomamos uma cerveja no pub irlandês, no meio dos amigos gigantes e só nos olhamos com aquelas caras de mortas de sono. Vamos pra casa né!? vamos! Depois de quase 24h sem dormir, peguei novamente a ciclovia com a Camila, dormi como uma pedra até quase meio-dia de domingo. Os planos eram ir à praia, e o tempo nos ajudou muito. Pegamos uma carona e seguimos para a praia em Castricum. Essas coisas são as mais legais, pois quando na minha vida eu imaginaria que iria numa praia na Holanda? Antes de sair do Brasil sabia tão pouco sobre esse país, mesmo sobre tudo na Europa, adoro essas descobertas e sou cada vez mais contra esse monte de estereótipos que as pessoas colocam em tudo.
O sol estava forte, dia lindo, apesar de um ventinho que ainda nos impedia de entrar no mar. Na ausência de um guarda-sol, a Camila teve a mirabolante ideia de pegar um guarda-chuva bem grande e levarmos pra praia; ótimo. Munidas da nossa umbrela, um estoque de cervejas belgas (a Camila é uma beerlover, como diz a Jaque, a irmã da sua hostmother). Chegamos, nos instalamos e mais uma vez, o estacionamento de carros vazio comparado ao de bikes, todo mundo de bike para praia, lindo isso, mesmo as crianças, que são colocadas em cadeirinhas ou vão com as suas próprias mini-bikes.
A praia era bem grande, o mar parece bastante com o que vemos geralmente em Florianópolis, bem calmo e verdinho. Muitas famílias, quase todas torrando no sol, todo mundo muito vermelho. Acho que a ânsia pelo Sol é tão grande que quando ele chega o lance é se fritar meeeeeesmo. O curioso era que tinha muita gente de topless e todos ficavam tranquilos, muito natural. Ficamos lá fazendo aquela preguiça, batendo papo, escutando música…Segundo a Camila, não tinha problema escutar música sem os fones, mas um tiozinho holandês veio “ralhar” com a gente umas 2 vezes, sorte que não entendemos nada.
Depois de um dia inteiro na praia, voltamos pra casa a pé. Acho que caminhamos em torno de 10km, pois viemos de carona e não tínhamos bikes para voltar. Quase nem vimos o tempo passar, de tanta história que contamos uma pra outra, pela paisagem sempre muito bonita que nos acompanhava. Então, aqui fica a minha propaganda, se tiverem a oportunidade, não deixem de conhecer a Holanda, é um país muito legal, me sinto realmente bem lá.
Na segunda-feira eu já teria que ir embora, mas por mim poderia até ficar mais. Então, pra aproveitar bem o que restava nas queridas terras holandesas, resolvemos não sair e acordar cedo.
Mochila pronta, partimos para Zaanse Schans, uma cidadezinha tão bonita que tem um nome tão difícil de se dizer, se pronuncia “zanzesrrãns”. É como Bruges na Bélgica, é uma mini-cidade que tem tudo que é típico do país e é muito bonitinho e arrumadinho e limpinho, até o ar que respirávamos era perfumado de chocolate.
Apesar de estarmos rodeadas de construções tipicamente holandesas, sapatos, queijos, vacas, canais e moinhos, nos sentíamos na China ou no Japão ou em Taiwan, pela presença massiva de turistas que provavelmente vinham de um desses lugares. A surpresa foi encontrar vários brasileiros também. Falando em brasileiros, não posso deixar de abrir um parêntese dentro de Zaanse Schans e contar sobre o nosso encontro com umas brasileiras muito corajosas em Amsterdam.
Indo pra casa da Camila, na estação do trem, estávamos conversando destraidamente na escada rolante, quando duas senhoras se viram na nossa direção e começam a dizer “Olha, elas estão falando…e é a nossa língua!!!!”. Nesse momento o teto se abriu e uma luz celestial incidiu sobre nós com anjinhos em volta. Era assim que eu me sentia, ver que falávamos português para elas foi a salvação. Elas não falavam uma só palavra em inglês e estavam querendo ir para o aeroporto, muito perdidas. Enfim, conversamos muito, ajudamos elas a comprarem os bilhetes, nos contaram todas as aventuras na Europa e ainda demos muitas dicas sobre os lugares que elas visitariam nos próximos dias. Fizemos a nossa boa ação e constatei que essas senhoras são um belo exemplo pra quem acha que é velho demais pra sair se aventurando pelo mundo e que a falta de um outro idioma é um problema, sempre se dá um jeito!
Mas bem, voltando ao nosso vilarejo típico holandês, visitamos lojas de queijos, infelizmente muito caros, fábrica de tamancos, tiramos muitas fotos engraçadíssimas…passamos ótimos momentos naquela bela cidade, me senti realmente dentro da Holanda. De lá fomos para Amsterdam para almoçar antes do meu trem, no famoso “5 pilas”, ideal para au poors, muito bom de qualquer jeito.
Me despedi da Camila, com uma nova amiga, muito contente da minha estadia, de ter visto tantas coisas legais que eu nem esperava ver. Porém, as surpresas não acabaram. No trem recebi uma ligação dos meus amigos chilenos que não consegui encontrar em Amsterdam, apesar da tentativa. Tentei arranhar um espanhol com a Lissete, mas ela falava rápido demais, então tentamos o francês, o inglês e aos trancos e barrancos conseguimos nos comunicar. Vejam o que é o destino, essa ligação e a tentativa de falar francês e espanhol com a amiga chilena me fez encontrar dois novos amigos, a Ghizlam, uma marroquina e o Guillermo, um espanhol. O Guillermo me perguntou em espanhol de onde eu vinha, respondi com um espanhol que ia vindo nem sei de onde que era brasileira. A Ghizlam nos observava atenta e cheia de sorrisos, louca pra entrar na conversa. Ficamos ali trocando umas ideias de leve, enquanto um africano nos observava super inserido na conversa, fazendo sinais que sim, quando entendia, ou conhecia um lugar do qual estávamos falando, realmente uma coisa totalmente multicultural e internacional, muito rico.
No fim o Guillermo acabou puxando papo com a Ghizlam também e nos sentamos os 3 juntos. Ele arranhava um francês, então acabei ficando de tradutora entre os 2, muito divertido, essas trocas culturais para mim são as coisas mais iteressantes de uma viagem, realmente não tem preço. Acabamos trocando contatos, nos convidando para nossos países. O Guillermo ofereceu seu apartamento em Valência pra quando e com quem quiséssemos ir, e a Ghizlam me convidou para o Marrocos. Imagina ir pra lá com ela?! Já estou vendo que uma segunda vinda na Europa será inevitável em pouco tempo. Os contatos já foram estabelecidos, estamos trocando e-mails e combinando de talvez nos reencontrarmos em Bruxelas, onde os 2 moram atualmente.
Cheguei em casa com uma sensação incrível de ter feito uma viagem realmente proveitosa, na qual, como sempre o que mais me marcou foi o contato com tantas culturas diversas, tantas novas realidades, tantas pessoas de tantos lugares. Está ficando cada vez mais evidente que não quero deixar que isso se perca na minha vida, preciso fazer com que todos esses amigos que fiz aqui viagem pro Brasil e conheçam um outro lado, não só o que passa na televisão, não só o carnaval, a violência e o futebol. Esses planos começam a tomar forma, espero que um dia a vida me dê a oportunidade de realizar isso e eu possa retribuir essa acolhida tão especial que tenho tido aqui no velho mundo.
Depois de experiências como essas, fico me perguntando o por quê de estarmos tão limitados dentro das nossas fronteiras, tão governados, tão regrados, tão separados…o mundo é tão cheio de coisas pra ver, para aprender, para sentir…Muito complexo pra achar uma resposta, melhor curtir essa reflexão ao som (tudo a ver) de Devendra:
In the dark we are without her empress light
In the dark we are without a light
Half asleep we’re calmly waiting through her night
Half asleep we wait ’til she arrives
Clouds of birds are governing her dark blue sky
Clouds of birds are governing her sky
A rush of wind is gently playing with their wings
And yellow stones are standing on her eyes
All rejoice we are in her hands
When in here hands all rejoice
Owl eyes her sun will rise and light the land
All rejoice we are in her hands



