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Archive for the ‘Viagens’ Category

…por onde andará…

Quase dois meses de Brésil, quase dois meses de sumiço no blog. Confesso que estou com frio na barriga de escrever aqui, pois isso me obriga a ver “como estão as coisas” a mistura de emoções é enorme, os olhos se viram pra trás, procurando refúgio numa fase da vida que já passou, me pego sonhando, planejando…mas a realidade me chama e chama com voz alta. Tive que ter uma conversa séria com a minha lista de pelo menos 8 pendências para “me dar ao luxo” de vir aqui e ver o que acontece com esse tal de blog.

São tantas coisas que eu nem sei por onde começar. Ainda na Europa eu me sentia terminando de fechar uma porta, virando uma página, vivendo os últimos dias de uma vida que eu desejei tanto que me transformou absurdamente, que me deixou tão cheia de recordações magníficas, que encheu me coração de tantas emoções, amor e novos amores, quase não consigo recordar quem eu era antes.

Vou começar então contando sobre meu último mês no velho mundo, o qual eu passei na Espanha. O primeiro destino rumo ao rico país espanhol foi a Catalunya, mais especificamente Barcelona. Que cidade incrível (esse comentário já está ficando batido!), não encontro outro adjetivo. É uma mistura de tudo, muita liberdade, muita gente de todas as cores. É uma espécie de caos ordenado. Tive uma impressão muito boa com relação a esse povo e até mesmo aos imigrantes que escolheram essa região como destino. Gente do bem, gente honesta, gente que se importa com o que foi combinado, com o respeito entre todos, com o espaço do outro. Pode ser que um dia eu mude completamente de ideia, mas até agora eles são como cavalheiros do rei Arthur. Digo eles, pois os catalães dos quais mais me aproximei foram rapazes que encontrei fora da Catalunya, coincidentemente, além de uma simpática “chica” com quem cruzei mais tarde. Em Barcelona fiz de tudo, é um lugar para todos os gostos e exigências, me apaixonei por essa cidade e espero voltar lá um dia, apesar de ter ficado lá uma semana não consegui ver tudo!…até me dá uma dor no coração, pois tenho tanto para contar, de tantas pessoas e lugares em particular, mas se eu fizer isso a minha lista de obrigações vai esperar de mais e a coisa vai ficar preta pro meu lado!!!

Saindo da Catalunya pegamos um avião rumo à Andalusia, onde conhecemos Málaga e Granada, duas cidades completamente diferentes do que já havia sido visitado na Espanha. Lá o sangue árabe começa a correr nas veias, a batida do flamenco embala o ritmo das descobertas e o sol arde na pele enquanto os touros negros nos observam plácidos do alto das colinas. (Ai quanta saudade!!!) No albergue em Málaga conhecemos um grupo muito louco de turistas do mundo inteiro, tinha até inglês falando português, americanos, australianos, chilenos, catalães, holandeses, italianos, argentinos…de tudo! Já na primeira noite todos se reuniram pra jogar um jogo proposto pelos americanos, cujo objetivo não era nada mais do que beber, os brasucas, o chileno companheiro e os catalães ficaram observando de longe a aventura dos companheiros e em seguida da jogatina alcoólica seguimos todos juntos pra uma balada andaluz, boas rizadas! No dia seguinte, mesmo após toda a festa nos unimos ao amigo chileno e aos dois catalanes lords simpáticos para visitar Torre Molinos.

Acabada a Estadia em Málaga, pegamos uma carona com os queridos catalanes e seguimos para Granada, onde o objetivo maior era conhecer a Alhambra. Sem comentários, que lugar fantástico, foi muito emocionante ver algo tão oriental, tão diferente da dobradinha virgem + menino Jesus. As fotos podem falar muito mais do que eu nessa hora! Saindo da Alhambra demos de cara com uma teteria, que parecia mais um portal para o Marrocos, um lugar inesquecível onde encontramos dois bolivianos que nos guiaram pela noite de Granada com muitos tapas, aperitivos e boas história para contar. Ah, sem esquecer nosso encontro com a simpática brasileira, que foi enviada pelo universo exclusivamente para atender as minhas preces sobre ver uma apresentação  de flamenco. Estávamos descendo o bairro árabe, Albaicin, onde eu divagava sobre o fato de estarmos na Andalusia e não termos visto flamenco. Nisso uma menina muito bonita se aproxima e nos convida pra conhecer uma casa onde havia muito boa comida e uma ótima apresentação de flamenco. Encarei como um sinal e decidimos ir ver que tal. Acabamos embarcando na aventura e descobrindo que nossa anfitriã era brasileira!! Passamos uma bela noite, finalizada pelo encontro já citado com os queridos bolivianos da teteria (casa de chás).

Terminada a viagem de descobertas na Andalusia e Catalunya, enfrentamos juntamente com nossas bikes uma longa jornada de autobus até Pamplona, na região da Navarra (mais uma vez como estar em outro país) para dar início à pedalada até Santiago de Compostela. Esse é um capítulo à parte, vivi coisas tão intensas, tão lindas…Embora eu não acredite que tenha a ver com o lugar em si, mas com a movimentação de quem passa por ali, de quem se propõe a viver esse caminho. Tantas pessoas ficam com a crença de que o caminho é mágico…certamente, não deixa de ser, mas não são as pedras, as árvores, os albergues, os povoados, as igrejas, mas sim as intenções de quem passa por ali. O caminho poderia ser no sertão nordestino que seria tão transformador quanto na Espanha. Vivi momentos de exaustão, de raiva, de amor, de troca infinita, de superação, de emoção…momentos nos quais um simples sorriso de alguém de um lugar desconhecido no mundo me fez desviar de um pensamento não tão positivo. Vontade de ajudar todo mundo a chegar no seu objetivo, de compartilhar tudo, mesmo que o que eu tivesse mal dava pra mim em alguns momentos…A peregrinação é uma irmandade em movimento, quase todos querem se conhecer, estão dispostos a ajudar a se doar, estão com os sentimentos à flor da pele, prontos para passar por todas as provações físicas e espirituais possíveis. Buen camino….é a frase que não saía das nossas bocas e ela é dita sempre com muito amor, carinho e sinceridade. Espero que todas as pessoas que eu vi nesse caminho estejam vivendo as suas mudanças e transformações intensamente, que todas as bolhas, dores e privações tenham valido a pena, tenho certeza que valeram.

Chega a ser um crime falar tão resumidamente sobre o Caminho, mas enfim…é o que temos agora, talvez eu volte a desenvolver esses tópicos com mais dedicação num futuro próximo! A chegada de Santiago já foi em tom de despedida. Longwy já estava ficando com cara de lembrança, voltando para o meu quarto no número 21 da avenue Foch, senti aquele cheio característico, o qual eu estava tão acostumada que já havia até esquecido. O mesmo cheiro que senti no primeiro dia de França, isso me fez voltar 11 meses no passado e me ver chegado lá, só que naquele momento estava fazendo as malas pra ir embora. Malas prontas, despedidas duras…muito choro, muita gratidão, muito amor vertendo no coração dos franceses e brasucas…ai ai ai…o clube de cicloturismo, os franceses e belgas amados que me adotaram como uma verdadeira filha! a minha família…os votos de sucesso na volta para o Brasil…tenho tanto a agradecer para todas essas pessoas, ao universo, por tudo que vivi, por todas as maravilhas que eles trouxeram pra minha vida.

Depois de uma viagem pouco confortável, muitas bagagens de um lado para o outro, conseguimos chegar ao aeroporto de Bruxelas para eu pegar meu vôo. Mal podia acreditar, estava mesmo voltando. Eu sentia o Brasil e tudo aqui me chamando, as pessoas, as oportunidades, tudo. Quase 24h de viagem, bagagens no carrinho e mama saltitando na área de desembarque. É…bem-vinda ao Brasil! A readaptação foi em ritmo ultra acelerado. Cheguei numa terça e na quarta já estava na faculdade, reuniões de trabalho, novos trabalhos, rever os amigos e a família, adrenalina na veia.

Isso tudo foi um grande resumo de tudo o que aconteceu e está acontecendo. Creio que estou no lugar certo na hora certa, mas as fronteiras estão se dissipando cada vez mais, o mochilão está a postos, pronto para uma nova aventura….India, Marrocos, África? Ainda não sei…só sei que uma passadinha na França e na Itália serão impressindíveis!
Não sei quando será a minha próxima aparição por aqui, mas deixo vocês, vou voltando para a minha realidade em Porto Alegre, para meus afazeres profissionais e acadêmicos…Fico à disposição para quem quiser dicas sobre intercâmbio como au pair, Caminho de Santiago, viagens para os países que conheci…Terei prazer em ajudar com qualquer dica.

Um grande grande abraço e muito obrigada a todos que me acompanharam no blog, foi muito importante, comemorei cada comentário e todos os acessos.
à bientôt!

Shana

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…Enfin Brésil…

Salut tout le mond!
Malas 98% prontas, e poucas horas pra pegar o avião em direção à casa. Casa? Durante esse ano o conceito de casa mudou bastante pra mim, acho que é simplesmente o lugar onde nos sentimos bem, não importa onde seja. Mas enfim, as reflexões mais profundas vão ficar pra outra hora, porque agora o tempo está realmente curto. Uma pequena aventura muito carregada de bagagens até o aeroporto de Bruxelas nos espera, acho que só vou realizar que estou realmente voltando pro Brasil quando estiver no avião Roma-SP. Antes desse ainda tem Bruxelas-Roma, antes desse ainda tem 3h de trem até Bruxelas…é….viajar também dá trabalho! Fico me perguntando o que vai ser desse espaço quando eu chegar no Brasil, até porque ele foi criado para abrigar as minhas aventuras no velho mundo, acho que de alguma forma ele vai continuar existindo, principalmente porque ainda tem muito o que contar sobre o meu último mês na Espanha, que foi lindo de viver, 760km pedalados, além de ter conhecido a Andalusia, a Catalunya…Aguardem! Creio que a minha chegada em Porto Alegre já vai ser bem agitada, principalmente carregadas de cadeiras na universidade, me matriculei em um monte de disciplinas, já vou matar duas aulas e um dia depois da chegada já vou dar as caras pelo centrão pra curtir uma aulinha de fotografia, ô coisa boa!
Gente, vou parando por aqui, nos vemos por aí, pelo Brasil, pelo mundo!
beijos grandes
Shana

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Holla,  buen camino!!

Oi todo mundo, estamos aqui em um albergue de peregrinos em Viana, na regiao da Navarra. Tudo muito emocionante ate agora, poucos minutos para contar, mas vamos tentar resumir.
Saimos ontem de Pamplona, a chuva veio na noite anterior e lavou o caminho para trazer o barro para nosso desafio. Pedalamos ate Lorca, onde dormimos e de onde saimos hoje pela manha para virmos ate aqui, em Viana, tambem abaixo de uma chuvinha so pra dar mais emoçao. Ate entao 100km pedalados, aproximadamente, um clima muito bacana no caminho, gente muito simpatica e dos mais diversos lugares do mundo.
Quando der postamos mais novidades, agora vamos curtir a festa de San Fermin, em alguns minutos o touro vai estar solto na rua e o povo correndo enlouquecido.
muchos  besos e hasta luego.
Shana e Roger

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Hasta luego

Olá povo! Ausência forte aqui, mas quem está em contato comigo sabe que as emoções estão tão grandes quanto o meu sumiço. Em breve estarei me despedindo oficialmente das meninas, que na verdade já estão de férias na casa dos avós há uma semana, e é pra lá que eu estou indo hoje pra passar mais um dia com elas e depois seguir para a minha aventura final na Espanha.

Além de explorar algumas cidades que vocês podem notar pelo mapa (programação que pode sofrer mudanças a qualquer momento!), a randonnée do século vai acontecer: farei aproximadamente 800km de bike de Pamplona até Santiago de Compostela, diga-se de passagem, muito bem acompanhada 😉

Queria agradecer a todos que comentaram aqui, que leram as minhas lamentações, alegrias, descobertas, revoltas, aventuras…muitas coisas que eu acabei dividindo e também pegando gosto de escrever, então a vocês, o meu MERCI BEAUCOUP. Creio que a minha próxima passagem por aqui será já em terras brasileiras, frio na barriga de voltar pra terrinha e reencontrar o meu povo amado, minha família e amigos, além de Pepi e Loli. 

Entretanto, um outro povo amado vai ficar pra trás por tempo indeterminado, ou seja, até que eu resolva voltar pra fazer uma visita, ou alguém decida se aventurar em terras brasileiras. A francesada tem fama de dura, mas muitos conquistaram o meu coração.  Ontem estava refletindo sobre isso, não é um fim, é um recomeço,  e todas essas experiências que vivi aqui estão impressas na nova pessoa que me tornei.

Todas essas pessoas queridas que conheci aqui, franceses, marroquinos, algerianos, italianos, portugueses, luxos, africanos, poloneses, alemães, canadenses, ingleses, húngaros, belgas, holandeses e até mesmo uns brasucas, agora fazem parte de mim de alguma forma, pois me ensinaram muitas coisas e contribuíram imensamente numa bagagem que vou carregar pro resto da vida.

Entonces, hasta luego amigos!!!
besitos

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Rando VTT Mussy

Cheguei nessa randonnée muito confiante, pois no finde anterior tinha feito facilmente 50km, doce ilusão!
Me inscrevi para os 45km e chegando ao fim dos 16 já havia tido mais dificuldade do que em todos os 50 da semana passada. Terreno bem desafiador, técnico e principalmente, banhado de barro. Fiquei das 8h30min até as 13h na trilha, 47km de muitos desafios, paciência e exercício. Está claro que tenho que aprimorar a minha técnica, e muito, ter mais coragem de me jogar, mas se pensar na evolução que tive desde a primeira rando, já dá pra ficar bem contente. A Bélgica tem sido o berço do VTT (mountainbike) pra mim, cada vez que volto de lá me convenço que tenho que fazer algo para desenvolver essa prática no Brasil.

Aqui as fotos que o pessoal da organização tirou, estou lá no meio 🙂

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OLAHOLANDA!

Vocês sabiam que na Holanda se diz “Oi” pra cumprimentar as pessoas? Nem eu. Embora se escreva “ola” se diz “Oi”, bacana, não? Mas por favor, se forem para a Holanda não saiam dizendo “Oi” pra todos, só para os conhecidos, pois é uma expressão empregada informalmente.

Bom, mas vamos ao que interessa, apesar de ser bem tarde aqui, estou pensando que já enrolei demais para relatar a minha especial estadia na Holanda, no penúltimo final de semana, que aqui foi acompanhado de feriado na segunda-feira. Para provar que a minha vida na Europa não é só nostalgia, como pareceu no último post e para reforçar o comentário da querida Y, que as coisas legais são muito mais numerosas e importantes que as que não são tanto, vou com muito prazer contar a vocês as minhas aventuras na Holanda com a Camila, uma guria “très cool et folle” (muito legal e maluquinha).

Até então eu já tinha visitado a Holanda duas vezes, mas me limitei a Amsterdam, nunca imaginaria que passaria por aquela cidade que eu tanto gosto novamente, pois não é que passei?! Sábado de manhã cedo encontrei com as minhas companheiras de carona em Luxembourg e de lá partimos para Amsterdam. Achei essa “carona” através de um site muito interessante que tem aqui na França de “covoiturage”, traduzindo toscamente: caronagem. Vejam que excitante: Eu estava partindo com meninas que nunca vi na vida para a casa de outra que eu conhecia só pela internet. Mesmo com todas essas surpresas eu estava me sentindo muito tranquila e à vontade. Voltando à história da carona, funciona basicamente assim: Colocamos um anúncio no site pra dizer que estamos saindo de um lugar pra ir pra um outro e temos, por exemplo, 3 lugares no carro. Esse trajeto tem um custo X, que comparado a um trem ou ônibus, muitas vezes é bem mais barato. Não sei por que, mas me sinto tranquila ao fazer isso aqui na Europa, mesmo que fosse com brasileiros, mas no Brasil a coisa muda de figura, espero um dia que a minha opinião mude também.

Éramos 5 no carro, eu, 3 francesas e uma menina do Madagascar (!). Seguimos até Namur para deixar a primeira passageira, a Luise, uma estudante de medicina muito simpática, continuando no clima de encontros com novas pessoas, acabamos entrando no ap da amiga dela pra ir ao banheiro, uma belga que nos recebeu muito calorosamente, mesmo que por poucos minutos e nos convidou para voltarmos quando quiséssemos. Retornamos para o nosso trajeto em direção à Amsterdam, onde eu me encontraria com a Camila para irmos para a cidade onde ela mora, Limmen.

Só não contava com o enorme engarrafamento que pegamos até chegar em Amsterdam, coisa que atrasou a minha chegada em quase 3h, a coitada da Camila ficou lá andando em círculos me esperando. Finalmente cheguei, depois de uma viagem muito longa mas também muito divertida com as minhas companheiras doidas, muita música, relatos engraçadíssimos e aquela empolgação para chegar na Holanda. Nos encontramos, eu e Camila, era como se já nos conhecêssemos, de tanto que já havíamos falado por internet, visto fotos e etc.

Os planos eram de talvez ir pra outra cidade já no sábado, mas a minha viagem de quase um dia inteiro nos impediu, então resolvemos nos munir de garrafas de vinho francês e nos estirarmos num parque à beira de um canal. Ficamos ali curtindo, foi ótimo. Quando começou a entardecer e esfriar fomos para a cidade dela, Limmen. Busão e trem depois, lá estávamos, na casa da família dela, super bonita, finalmente eu estava conhecendo um pouco mais da Holanda, apesar da proximidade com Amsterdam, menos turística e mais real. Mesmo nas cidadezinhas pequenas, todas as ruas para carros são costeadas por ciclovias, normalmente bem mais lotadas que a “estrada” e a calçada de pedestres. O povo de lá realmente tem a bike incorporada em suas vidas a muuuuuuito tempo e eu acho isso simplesmente o máximo.

Jantamos e conheci a família da Camila, muito legais. Só me deu uma agonia de não poder falar com as crianças que só falavam alemão e holandês. Aquela criaturinha loira coisa mais linda tentando se comunicar comigo e eu ali sem entender uma palavra, que coisa!!! Apesar de estarmos um pouco cansadas, tomamos uma ducha, pegamos as bikes e fomos para Alkmaar, uma cidade pertinho dali, para curtirmos uma night.

A Christelle sempre fala que os gigantes existem, é normal, ela é tão pequena que deve pensar que muita gente alta é gigante. Entretanto, tive que comprovar a constatação da baixinha com a minha descoberta que eles existem sim, e são holandeses. Eu já tinha reparado nas outras idas à Amsterdam que as coisas eram muito altas no banheiro, mas não tinha notado a altura deles no meio da turistada. Porém, nessa saída num pub extremamente local, me senti um pigmeu. Sem contar pela bike que peguei pra ir até lá, uma coisa enorme que eu mal alcançava nos pedais e não conseguia guiar, só andar em linha reta, pura adrenalina, minha mountainbike parece uma bicicleta de criança do lado daquela.

Tomamos uma cerveja no pub irlandês, no meio dos amigos gigantes e só nos olhamos com aquelas caras de mortas de sono. Vamos pra casa né!? vamos! Depois de quase 24h sem dormir, peguei novamente a ciclovia com a Camila, dormi como uma pedra até quase meio-dia de domingo. Os planos eram ir à praia, e o tempo nos ajudou muito. Pegamos uma carona e seguimos para a praia em Castricum. Essas coisas são as mais legais, pois quando na minha vida eu imaginaria que iria numa praia na Holanda? Antes de sair do Brasil sabia tão pouco sobre esse país, mesmo sobre tudo na Europa, adoro essas descobertas e sou cada vez mais contra esse monte de estereótipos que as pessoas colocam em tudo.

O sol estava forte, dia lindo, apesar de um ventinho que ainda nos impedia de entrar no mar. Na ausência de um guarda-sol, a Camila teve a mirabolante ideia de pegar um guarda-chuva bem grande e levarmos pra praia; ótimo. Munidas da nossa umbrela, um estoque de cervejas belgas (a Camila é uma beerlover, como diz a Jaque, a irmã da sua hostmother). Chegamos, nos instalamos e mais uma vez, o estacionamento de carros vazio comparado ao de bikes, todo mundo de bike para praia, lindo isso, mesmo as crianças, que são colocadas em cadeirinhas ou vão com as suas próprias mini-bikes.

A praia era bem grande, o mar parece bastante com o que vemos geralmente em Florianópolis, bem calmo e verdinho. Muitas famílias, quase todas torrando no sol, todo mundo muito vermelho. Acho que a ânsia pelo Sol é tão grande que quando ele chega o lance é se fritar meeeeeesmo. O curioso era que tinha muita gente de topless e todos ficavam tranquilos, muito natural. Ficamos lá fazendo aquela preguiça, batendo papo, escutando música…Segundo a Camila, não tinha problema escutar música sem os fones, mas um tiozinho holandês veio “ralhar” com a gente umas 2 vezes, sorte que não entendemos nada.

Depois de um dia inteiro na praia, voltamos pra casa a pé. Acho que caminhamos em torno de 10km, pois viemos de carona e não tínhamos bikes para voltar. Quase nem vimos o tempo passar, de tanta história que contamos uma pra outra, pela paisagem sempre muito bonita que nos acompanhava. Então, aqui fica a minha propaganda, se tiverem a oportunidade, não deixem de conhecer a Holanda, é um país muito legal, me sinto realmente bem lá.

Na segunda-feira eu já teria que ir embora, mas por mim poderia até ficar mais. Então, pra aproveitar bem o que restava nas queridas terras holandesas, resolvemos não sair e acordar cedo.
Mochila pronta, partimos para Zaanse Schans, uma cidadezinha tão bonita que tem um nome tão difícil de se dizer, se pronuncia “zanzesrrãns”. É como Bruges na Bélgica, é uma mini-cidade que tem tudo que é típico do país e é muito bonitinho e arrumadinho e limpinho, até o ar que respirávamos era perfumado de chocolate.

Apesar de estarmos rodeadas de construções tipicamente holandesas, sapatos, queijos, vacas, canais e moinhos, nos sentíamos na China ou no Japão ou em Taiwan, pela presença massiva de turistas que provavelmente vinham de um desses lugares. A surpresa foi encontrar vários brasileiros também. Falando em brasileiros, não posso deixar de abrir um parêntese dentro de Zaanse Schans e contar sobre o nosso encontro com umas brasileiras muito corajosas em Amsterdam.

Indo pra casa da Camila, na estação do trem, estávamos conversando destraidamente na escada rolante, quando duas senhoras se viram na nossa direção e começam a dizer “Olha, elas estão falando…e é a nossa língua!!!!”. Nesse momento o teto se abriu e uma luz celestial incidiu sobre nós com anjinhos em volta. Era assim que eu me sentia, ver que falávamos português para elas foi a salvação. Elas não falavam uma só palavra em inglês e estavam querendo ir para o aeroporto, muito perdidas. Enfim, conversamos muito, ajudamos elas a comprarem os bilhetes, nos contaram todas as aventuras na Europa e ainda demos muitas dicas sobre os lugares que elas visitariam nos próximos dias. Fizemos a nossa boa ação e constatei que essas senhoras são um belo exemplo pra quem acha que é velho demais pra sair se aventurando pelo mundo e que a falta de um outro idioma é um problema, sempre se dá um jeito!

Mas bem, voltando ao nosso vilarejo típico holandês, visitamos lojas de queijos, infelizmente muito caros, fábrica de tamancos, tiramos muitas fotos engraçadíssimas…passamos ótimos momentos naquela bela cidade, me senti realmente dentro da Holanda. De lá fomos para Amsterdam para almoçar antes do meu trem, no famoso “5 pilas”, ideal para au poors, muito bom de qualquer jeito.

Me despedi da Camila, com uma nova amiga, muito contente da minha estadia, de ter visto tantas coisas legais que eu nem esperava ver. Porém, as surpresas não acabaram. No trem recebi uma ligação dos meus amigos chilenos que não consegui encontrar em Amsterdam, apesar da tentativa. Tentei arranhar um espanhol com a Lissete, mas ela falava rápido demais, então tentamos o francês, o inglês e aos trancos e barrancos conseguimos nos comunicar. Vejam o que é o destino, essa ligação e a tentativa de falar francês e espanhol com a amiga chilena me fez encontrar dois novos amigos, a Ghizlam, uma marroquina e o Guillermo, um espanhol. O Guillermo me perguntou em espanhol de onde eu vinha, respondi com um espanhol que ia vindo nem sei de onde que era brasileira. A Ghizlam nos observava atenta e cheia de sorrisos, louca pra entrar na conversa. Ficamos ali trocando umas ideias de leve, enquanto um africano nos observava super inserido na conversa, fazendo sinais que sim, quando entendia, ou conhecia um lugar do qual estávamos falando, realmente uma coisa totalmente multicultural e internacional, muito rico.

No fim o Guillermo acabou puxando papo com a Ghizlam também e nos sentamos os 3 juntos. Ele arranhava um francês, então acabei ficando de tradutora entre os 2, muito divertido, essas trocas culturais para mim são as coisas mais iteressantes de uma viagem, realmente não tem preço. Acabamos trocando contatos, nos convidando para nossos países. O Guillermo ofereceu seu apartamento em Valência pra quando e com quem quiséssemos ir, e a Ghizlam me convidou para o Marrocos. Imagina ir pra lá com ela?! Já estou vendo que uma segunda vinda na Europa será inevitável em pouco tempo. Os contatos já foram estabelecidos, estamos trocando e-mails e combinando de talvez nos reencontrarmos em Bruxelas, onde os 2 moram atualmente.

Cheguei em casa com uma sensação incrível de ter feito uma viagem realmente proveitosa, na qual, como sempre o que mais me marcou foi o contato com tantas culturas diversas, tantas novas realidades, tantas pessoas de tantos lugares. Está ficando cada vez mais evidente que não quero deixar que isso se perca na minha vida, preciso fazer com que todos esses amigos que fiz aqui viagem pro Brasil e conheçam um outro lado, não só o que passa na televisão, não só o carnaval, a violência e o futebol. Esses planos começam a tomar forma, espero que um dia a vida me dê a oportunidade de realizar isso e eu possa retribuir essa acolhida tão especial que tenho tido aqui no velho mundo.

Depois de experiências como essas, fico me perguntando o por quê de estarmos tão limitados dentro das nossas fronteiras, tão governados, tão regrados, tão separados…o mundo é tão cheio de coisas pra ver, para aprender, para sentir…Muito complexo pra achar uma resposta, melhor curtir essa reflexão ao som (tudo a ver) de Devendra:

In the dark we are without her empress light
In the dark we are without a light
Half asleep we’re calmly waiting through her night
Half asleep we wait ’til she arrives

Clouds of birds are governing her dark blue sky
Clouds of birds are governing her sky
A rush of wind is gently playing with their wings
And yellow stones are standing on her eyes

All rejoice we are in her hands
When in here hands all rejoice
Owl eyes her sun will rise and light the land
All rejoice we are in her hands

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A vida sobre duas rodas


Olá gente, por aqui sem muitas novidades blogáveis, exceto pelas ciclísticas!
A semana passada foi de grande atividade sobre duas rodas, tudo com gostinho de despedida.

O tempo anda muito louco por aqui, já era pra estar quente e uma nuvem negra de frio e chuva se instalou na Europa do Norte, como se já não bastasse todo o frio que passamos e a chuva que caiu, isso é realmente algo que me decepciona, mas a madame nature quer assim, quem sou eu pra discordar.

Segunda nem terça passada consegui pedalar, porém vinha de um finde com bastante quilômetros, 87km de ida e volta até a Alemanha, em Nenning, um vilarejo romano,onde tem um sítio arqueológico com um super mosaico cheio de desenhos de crueldades de gladiadores, muito artístico, deve ter demorado décadas para ser feito, mas tenho que admitir que é duro de ver todas as barbaries que faziam pro povo se divertir, o tal de “pão e circo” que aprendemos na escola. Hoje em dia as tele-novelas cumprem esse papel.

Bom, mas era de bike que eu estava falando, não é mesmo?! Fiz esses 87km bem tranquila, a estrada era bonita, sem muuuitas subidas, apesar de uns 20km de chuva foi light. Na última quinta-feira foi feriado aqui, sabia de uma trilha de mtb que teria em Etalle, na Bélgica, a 30km de Longwy. Porém, dessa vez não teria a facilidade da carona dos amigos que iriam pedalar na estrada em Metz.

Decidi que poderia me virar sozinha, já que a distância não era assim tão grande. Pedi pro Allain me mostrar o caminho e na quarta-feira fizemos ida e volta de Etalle, 63km, caminho fácil de se achar, mas tive que prestar muita atenção, pois aquele meu vício de se perder sempre dá um jeito de me fazer andar em círculos.

Quinta-feira despertador tocou cedinho, dei aquela enrolada básica e 7h já estava de pé para a minha aventura em Etalle. De fato, quase me perdi no caminho, mas no fim me achei facinho. Durante o trajeto ví várias pessoas com suas bikes no bagageiro do carro indo pra mesma trilha e eu ali penando com a minha mtb na estrada, deu até vontade de pedir uma caroninha. Depois que a gente se acostuma com uma speed na estrada, com aquelas rodas enormes, é complicado ir pro asfalto com uma mtb, é um “pedala, pedala e não anda”.

Mas enfim, chegando lá já um pouco cansada depois de 31km, fiz a minha inscrição para os 22km, pra não abusar, mas caso a trilha fosse tranquila seguiria adiante nos 35km. O pessoal caprichou, colocou uma largada como nas competições, me senti quase uma atleta (jura!!!!). Entramos na floresta, até então tudo plano, sem subidas nem descidas suicidas como as que peguei em Arlon. Percurso muito agradável, tudo flechadinho, pura curtição. Estava quase nos 20km quando cheguei no “ravito” que é onde paramos pra comer e beber, tudo incluído na minha inscrição de 3 euros, vejam só que maravilha!

Percebi que não estava cansada, muito pelo contrário, não queria que aquela trilha terminasse tão cedo, resolvi ficar para os 35km. Aí é que veio o verdadeiro desafio. O que era plano se transformou em subida, e que subidas, infindáveis. Sobe, sobe, sobe, e barro pra todo lado, já que havia chovido quase toda a semana.

Mesmo que as lombas tenham dado trabalho, foi tudo muito gratificante, cada vez que entro numa dessas trilhas saio com a alma lavada, pedalar na natureza é o que há!!! Cheguei da minha aventura feliz da vida, de volta ao clube de Etalle. Os belgas já estavam todos lá, reunidos brindando com muita cerveja, como sempre. Eu tinha uma carona arranjada com um conhecido dos pedais na estrada, o Franc, um belga super camarada, me encontrei com ele e sua família na confraternização de final de randonnée e garanti minha volta pra Longwy tranquila, sem ter que pedalar mais 30km.

O pessoal como sempre é muito caloroso e acolhedor, esse clube de bikers foi um achado e tanto, as vezes salvam a minha estadia aqui, pois como todos sabem, a Europa é um paraíso quando se está de férias viajando tranquilo, morar são outros quinhentos, nem tudo são rosas.

Sexta foi dia de folga dos pedais, já que sábado teria um casca grossa. Fiquei com a Christelle a manhã toda, a Sophia foi no dentista com a maman, é impressionante como quando ela está sozinha comigo vira um anjinho, quem dera fosse assim sempre. Almoçamos fora, resolvi umas pendências e fechei o dia com uma bela pizza 4 queijos assistindo um dos meus filmes prediletos: into the wild.

Sábado o pedal foi forte, 115km em Luxembourg, com um desnível de 1400 metros, como dizem os franceses: ohlálá!!! esse foi duro. Meus primeiros 100km de bike com subidas que exigiram muito do meu poder mental pra não desistir, aproximadamente 6 horas de pedal num frio dos mais xaropes, embora a paisagem nos recompensasse a cada instante, o pedal pareceu tão longo que eu tinha a impressão que a qualquer momento avistaria a Usina do Gasômetro.

O pior é que me dei conta pela primeira vez que a velha bike de guerra que o Allain me emprestou já se mostrou fraca pra esse tipo de pedal com muito sobe e desce, fazia tanto barulho pra trocar a velocidade que parecia que a correia ia saltar fora, e olha que cuidei pra fazer nos momentos mais precisos possíveis. No fim, completei o percurso sem grande cansaço e com o fator extra de ter a bike mais velha de todos que estavam lá, é assim que se começa! O engraçado é que durante o pedal eu tive momentos de extremo mau-humor, pensando, “onde é que eu fui me meter?” e com pouquíssima paciência pros assuntos intermináveis do Allain, gosta de falar esse francês, mon dieu!
Nas lombas eu ali penando e ele de bla blá blá, desafio para a calma da brasuca aqui! Só tive que largar um “te concentra na subidaaaaa!!!!%@#§”

Foi um belo treinamento, depois desses 115km sem mortos nem feridos nem dores, sei que sou capaz de ir bem longe em cima de uma bike…aliás, falando nisso, se a Nossa senhora das duas rodas bem quiser, em breve estarei partindo para a randonnée do século, veremos!

Pra terminar uma música que traduz bem como me sinto pedalando entre toda essa natureza das selvas belgas!

Minha sombra corre comigo
Sob o enorme sol branco
Minha sombra vem comigo enquanto nós deixamos tudo
Deixamos tudo para trás

Vozes súbitas no vento
E a verdade que elas estão contando
O mundo começa onde a estrada acaba
Observe-me deixar tudo para trás
Para trás
A riqueza dos bolsos vazios
O amor vai criar uma sensação de riqueza

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