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OLAHOLANDA!

Vocês sabiam que na Holanda se diz “Oi” pra cumprimentar as pessoas? Nem eu. Embora se escreva “ola” se diz “Oi”, bacana, não? Mas por favor, se forem para a Holanda não saiam dizendo “Oi” pra todos, só para os conhecidos, pois é uma expressão empregada informalmente.

Bom, mas vamos ao que interessa, apesar de ser bem tarde aqui, estou pensando que já enrolei demais para relatar a minha especial estadia na Holanda, no penúltimo final de semana, que aqui foi acompanhado de feriado na segunda-feira. Para provar que a minha vida na Europa não é só nostalgia, como pareceu no último post e para reforçar o comentário da querida Y, que as coisas legais são muito mais numerosas e importantes que as que não são tanto, vou com muito prazer contar a vocês as minhas aventuras na Holanda com a Camila, uma guria “très cool et folle” (muito legal e maluquinha).

Até então eu já tinha visitado a Holanda duas vezes, mas me limitei a Amsterdam, nunca imaginaria que passaria por aquela cidade que eu tanto gosto novamente, pois não é que passei?! Sábado de manhã cedo encontrei com as minhas companheiras de carona em Luxembourg e de lá partimos para Amsterdam. Achei essa “carona” através de um site muito interessante que tem aqui na França de “covoiturage”, traduzindo toscamente: caronagem. Vejam que excitante: Eu estava partindo com meninas que nunca vi na vida para a casa de outra que eu conhecia só pela internet. Mesmo com todas essas surpresas eu estava me sentindo muito tranquila e à vontade. Voltando à história da carona, funciona basicamente assim: Colocamos um anúncio no site pra dizer que estamos saindo de um lugar pra ir pra um outro e temos, por exemplo, 3 lugares no carro. Esse trajeto tem um custo X, que comparado a um trem ou ônibus, muitas vezes é bem mais barato. Não sei por que, mas me sinto tranquila ao fazer isso aqui na Europa, mesmo que fosse com brasileiros, mas no Brasil a coisa muda de figura, espero um dia que a minha opinião mude também.

Éramos 5 no carro, eu, 3 francesas e uma menina do Madagascar (!). Seguimos até Namur para deixar a primeira passageira, a Luise, uma estudante de medicina muito simpática, continuando no clima de encontros com novas pessoas, acabamos entrando no ap da amiga dela pra ir ao banheiro, uma belga que nos recebeu muito calorosamente, mesmo que por poucos minutos e nos convidou para voltarmos quando quiséssemos. Retornamos para o nosso trajeto em direção à Amsterdam, onde eu me encontraria com a Camila para irmos para a cidade onde ela mora, Limmen.

Só não contava com o enorme engarrafamento que pegamos até chegar em Amsterdam, coisa que atrasou a minha chegada em quase 3h, a coitada da Camila ficou lá andando em círculos me esperando. Finalmente cheguei, depois de uma viagem muito longa mas também muito divertida com as minhas companheiras doidas, muita música, relatos engraçadíssimos e aquela empolgação para chegar na Holanda. Nos encontramos, eu e Camila, era como se já nos conhecêssemos, de tanto que já havíamos falado por internet, visto fotos e etc.

Os planos eram de talvez ir pra outra cidade já no sábado, mas a minha viagem de quase um dia inteiro nos impediu, então resolvemos nos munir de garrafas de vinho francês e nos estirarmos num parque à beira de um canal. Ficamos ali curtindo, foi ótimo. Quando começou a entardecer e esfriar fomos para a cidade dela, Limmen. Busão e trem depois, lá estávamos, na casa da família dela, super bonita, finalmente eu estava conhecendo um pouco mais da Holanda, apesar da proximidade com Amsterdam, menos turística e mais real. Mesmo nas cidadezinhas pequenas, todas as ruas para carros são costeadas por ciclovias, normalmente bem mais lotadas que a “estrada” e a calçada de pedestres. O povo de lá realmente tem a bike incorporada em suas vidas a muuuuuuito tempo e eu acho isso simplesmente o máximo.

Jantamos e conheci a família da Camila, muito legais. Só me deu uma agonia de não poder falar com as crianças que só falavam alemão e holandês. Aquela criaturinha loira coisa mais linda tentando se comunicar comigo e eu ali sem entender uma palavra, que coisa!!! Apesar de estarmos um pouco cansadas, tomamos uma ducha, pegamos as bikes e fomos para Alkmaar, uma cidade pertinho dali, para curtirmos uma night.

A Christelle sempre fala que os gigantes existem, é normal, ela é tão pequena que deve pensar que muita gente alta é gigante. Entretanto, tive que comprovar a constatação da baixinha com a minha descoberta que eles existem sim, e são holandeses. Eu já tinha reparado nas outras idas à Amsterdam que as coisas eram muito altas no banheiro, mas não tinha notado a altura deles no meio da turistada. Porém, nessa saída num pub extremamente local, me senti um pigmeu. Sem contar pela bike que peguei pra ir até lá, uma coisa enorme que eu mal alcançava nos pedais e não conseguia guiar, só andar em linha reta, pura adrenalina, minha mountainbike parece uma bicicleta de criança do lado daquela.

Tomamos uma cerveja no pub irlandês, no meio dos amigos gigantes e só nos olhamos com aquelas caras de mortas de sono. Vamos pra casa né!? vamos! Depois de quase 24h sem dormir, peguei novamente a ciclovia com a Camila, dormi como uma pedra até quase meio-dia de domingo. Os planos eram ir à praia, e o tempo nos ajudou muito. Pegamos uma carona e seguimos para a praia em Castricum. Essas coisas são as mais legais, pois quando na minha vida eu imaginaria que iria numa praia na Holanda? Antes de sair do Brasil sabia tão pouco sobre esse país, mesmo sobre tudo na Europa, adoro essas descobertas e sou cada vez mais contra esse monte de estereótipos que as pessoas colocam em tudo.

O sol estava forte, dia lindo, apesar de um ventinho que ainda nos impedia de entrar no mar. Na ausência de um guarda-sol, a Camila teve a mirabolante ideia de pegar um guarda-chuva bem grande e levarmos pra praia; ótimo. Munidas da nossa umbrela, um estoque de cervejas belgas (a Camila é uma beerlover, como diz a Jaque, a irmã da sua hostmother). Chegamos, nos instalamos e mais uma vez, o estacionamento de carros vazio comparado ao de bikes, todo mundo de bike para praia, lindo isso, mesmo as crianças, que são colocadas em cadeirinhas ou vão com as suas próprias mini-bikes.

A praia era bem grande, o mar parece bastante com o que vemos geralmente em Florianópolis, bem calmo e verdinho. Muitas famílias, quase todas torrando no sol, todo mundo muito vermelho. Acho que a ânsia pelo Sol é tão grande que quando ele chega o lance é se fritar meeeeeesmo. O curioso era que tinha muita gente de topless e todos ficavam tranquilos, muito natural. Ficamos lá fazendo aquela preguiça, batendo papo, escutando música…Segundo a Camila, não tinha problema escutar música sem os fones, mas um tiozinho holandês veio “ralhar” com a gente umas 2 vezes, sorte que não entendemos nada.

Depois de um dia inteiro na praia, voltamos pra casa a pé. Acho que caminhamos em torno de 10km, pois viemos de carona e não tínhamos bikes para voltar. Quase nem vimos o tempo passar, de tanta história que contamos uma pra outra, pela paisagem sempre muito bonita que nos acompanhava. Então, aqui fica a minha propaganda, se tiverem a oportunidade, não deixem de conhecer a Holanda, é um país muito legal, me sinto realmente bem lá.

Na segunda-feira eu já teria que ir embora, mas por mim poderia até ficar mais. Então, pra aproveitar bem o que restava nas queridas terras holandesas, resolvemos não sair e acordar cedo.
Mochila pronta, partimos para Zaanse Schans, uma cidadezinha tão bonita que tem um nome tão difícil de se dizer, se pronuncia “zanzesrrãns”. É como Bruges na Bélgica, é uma mini-cidade que tem tudo que é típico do país e é muito bonitinho e arrumadinho e limpinho, até o ar que respirávamos era perfumado de chocolate.

Apesar de estarmos rodeadas de construções tipicamente holandesas, sapatos, queijos, vacas, canais e moinhos, nos sentíamos na China ou no Japão ou em Taiwan, pela presença massiva de turistas que provavelmente vinham de um desses lugares. A surpresa foi encontrar vários brasileiros também. Falando em brasileiros, não posso deixar de abrir um parêntese dentro de Zaanse Schans e contar sobre o nosso encontro com umas brasileiras muito corajosas em Amsterdam.

Indo pra casa da Camila, na estação do trem, estávamos conversando destraidamente na escada rolante, quando duas senhoras se viram na nossa direção e começam a dizer “Olha, elas estão falando…e é a nossa língua!!!!”. Nesse momento o teto se abriu e uma luz celestial incidiu sobre nós com anjinhos em volta. Era assim que eu me sentia, ver que falávamos português para elas foi a salvação. Elas não falavam uma só palavra em inglês e estavam querendo ir para o aeroporto, muito perdidas. Enfim, conversamos muito, ajudamos elas a comprarem os bilhetes, nos contaram todas as aventuras na Europa e ainda demos muitas dicas sobre os lugares que elas visitariam nos próximos dias. Fizemos a nossa boa ação e constatei que essas senhoras são um belo exemplo pra quem acha que é velho demais pra sair se aventurando pelo mundo e que a falta de um outro idioma é um problema, sempre se dá um jeito!

Mas bem, voltando ao nosso vilarejo típico holandês, visitamos lojas de queijos, infelizmente muito caros, fábrica de tamancos, tiramos muitas fotos engraçadíssimas…passamos ótimos momentos naquela bela cidade, me senti realmente dentro da Holanda. De lá fomos para Amsterdam para almoçar antes do meu trem, no famoso “5 pilas”, ideal para au poors, muito bom de qualquer jeito.

Me despedi da Camila, com uma nova amiga, muito contente da minha estadia, de ter visto tantas coisas legais que eu nem esperava ver. Porém, as surpresas não acabaram. No trem recebi uma ligação dos meus amigos chilenos que não consegui encontrar em Amsterdam, apesar da tentativa. Tentei arranhar um espanhol com a Lissete, mas ela falava rápido demais, então tentamos o francês, o inglês e aos trancos e barrancos conseguimos nos comunicar. Vejam o que é o destino, essa ligação e a tentativa de falar francês e espanhol com a amiga chilena me fez encontrar dois novos amigos, a Ghizlam, uma marroquina e o Guillermo, um espanhol. O Guillermo me perguntou em espanhol de onde eu vinha, respondi com um espanhol que ia vindo nem sei de onde que era brasileira. A Ghizlam nos observava atenta e cheia de sorrisos, louca pra entrar na conversa. Ficamos ali trocando umas ideias de leve, enquanto um africano nos observava super inserido na conversa, fazendo sinais que sim, quando entendia, ou conhecia um lugar do qual estávamos falando, realmente uma coisa totalmente multicultural e internacional, muito rico.

No fim o Guillermo acabou puxando papo com a Ghizlam também e nos sentamos os 3 juntos. Ele arranhava um francês, então acabei ficando de tradutora entre os 2, muito divertido, essas trocas culturais para mim são as coisas mais iteressantes de uma viagem, realmente não tem preço. Acabamos trocando contatos, nos convidando para nossos países. O Guillermo ofereceu seu apartamento em Valência pra quando e com quem quiséssemos ir, e a Ghizlam me convidou para o Marrocos. Imagina ir pra lá com ela?! Já estou vendo que uma segunda vinda na Europa será inevitável em pouco tempo. Os contatos já foram estabelecidos, estamos trocando e-mails e combinando de talvez nos reencontrarmos em Bruxelas, onde os 2 moram atualmente.

Cheguei em casa com uma sensação incrível de ter feito uma viagem realmente proveitosa, na qual, como sempre o que mais me marcou foi o contato com tantas culturas diversas, tantas novas realidades, tantas pessoas de tantos lugares. Está ficando cada vez mais evidente que não quero deixar que isso se perca na minha vida, preciso fazer com que todos esses amigos que fiz aqui viagem pro Brasil e conheçam um outro lado, não só o que passa na televisão, não só o carnaval, a violência e o futebol. Esses planos começam a tomar forma, espero que um dia a vida me dê a oportunidade de realizar isso e eu possa retribuir essa acolhida tão especial que tenho tido aqui no velho mundo.

Depois de experiências como essas, fico me perguntando o por quê de estarmos tão limitados dentro das nossas fronteiras, tão governados, tão regrados, tão separados…o mundo é tão cheio de coisas pra ver, para aprender, para sentir…Muito complexo pra achar uma resposta, melhor curtir essa reflexão ao som (tudo a ver) de Devendra:

In the dark we are without her empress light
In the dark we are without a light
Half asleep we’re calmly waiting through her night
Half asleep we wait ’til she arrives

Clouds of birds are governing her dark blue sky
Clouds of birds are governing her sky
A rush of wind is gently playing with their wings
And yellow stones are standing on her eyes

All rejoice we are in her hands
When in here hands all rejoice
Owl eyes her sun will rise and light the land
All rejoice we are in her hands

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Nove meses depois…

Nove meses atrás que comecei esse blog. Desde setembro do ano passado tantas coisas aconteceram, a maioria delas escrevi aqui, outras guardei pra mim. Nesse momento, olhando pela minha janela, observando a primavera cinza da Lorraine, me recordo de uma pessoa que chegou nesse quarto morta de cansaço, depois de uma viagem de quase 20 horas até a nova casa francesa. Me joguei na minha cama como quem se joga numa nova vida, sem medos, sem limitações, um novo universo me esperava.

A contar de hoje, me restam exatamente 40 dias como “fille au pair”. Se olhar pra trás e pensar em tudo que vivi, librianamente me posicionarei de forma neutra. Não posso dizer que vivi um mundo de sonhos e maravilhas, mas parafraseando o “rei” posso dizer que “O importante é que emoções eu vivi”. Isso parece bem piegas, mas é uma frase ótima pra ilustrar esse período da minha vida. Tive tempo de viver emoções, de gostar, de desgostar, de ter muita raiva, vontade de sumir, sentir muito amor, dar sem receber tanto e também vice-versa, resumidamente, me encontrar muito comigo mesma e ver o quanto também posso entender os outros entendendo a mim. Foi o ano de se atirar no desconhecido, ir seguindo sem saber muito bem o que iria acontecer no dia seguinte, confiar nas pessoas, confiar no mundo.

Não gosto de dizer que estou feliz por isso, ou triste por aquilo, mas posso afirmar que me traz uma certa paz ter a certeza de que não vim para a França fugindo do Brasil e nem vou voltar para o Brasil fugindo da França. Parece a hora perfeita de voltar. Durante o nosso duro inverno cheguei a pensar que seria melhor estar no Brasil, pois percebi que o inverno aqui é muito mais do que uma estação, é um estado de espírito. As pessoas se escondem, até eu mesma me escondi dentro dos meus casacos e toucas negros e ao passo que a primavera chega, todos vão recomeçando a comunicação com o mundo.

Tantas coisas morreram dentro de mim, tantas outras nasceram, foi um turbilhão. Conheci tanta gente especial,tanta gente que com um simples contato foram capazes de mudar algo dentro de mim, abrir a minha visão. Vou voltar para o Brasil com uma nova idéia sobre meu país, mas ao mesmo tempo desacostumada com tantas misérias e injustiças que já vi naquelas terras. Não que aqui não exista isso, mas em quantidade é realmente bem menor. Entretanto, o que fazer? Tenho certeza de que poderia ficar aqui e tentar esquecer de onde vim, mas se nasci em território brasileiro, mesmo com tantos antepassados europeus, é um sinal claro de que tenho coisas pra fazer por lá. Muita gente vem para Europa dizendo que aqui é bom por isso ou por aquilo, que é desenvolvido, mas se todos começarem a pensar assim e deixarem seus países pra vir pra cá, aí sim é que não vamos desenvolver nada.

Foram 9 meses longe de pessoas muito importantes para mim, até o fim serão 11. Porém, quem diz que a distância separa, está muito enganado, acho que ele pode nos aproximar ainda mais. Não gosto de criar expectativas, mas espero que o Brasil me receba com o mesmo entusiasmo que eu estou de reencontrá-lo.

Termino com uma música especial enviada por um amigo ainda mais especial. Uma pena não ter achado na versão original…

A vida sobre duas rodas


Olá gente, por aqui sem muitas novidades blogáveis, exceto pelas ciclísticas!
A semana passada foi de grande atividade sobre duas rodas, tudo com gostinho de despedida.

O tempo anda muito louco por aqui, já era pra estar quente e uma nuvem negra de frio e chuva se instalou na Europa do Norte, como se já não bastasse todo o frio que passamos e a chuva que caiu, isso é realmente algo que me decepciona, mas a madame nature quer assim, quem sou eu pra discordar.

Segunda nem terça passada consegui pedalar, porém vinha de um finde com bastante quilômetros, 87km de ida e volta até a Alemanha, em Nenning, um vilarejo romano,onde tem um sítio arqueológico com um super mosaico cheio de desenhos de crueldades de gladiadores, muito artístico, deve ter demorado décadas para ser feito, mas tenho que admitir que é duro de ver todas as barbaries que faziam pro povo se divertir, o tal de “pão e circo” que aprendemos na escola. Hoje em dia as tele-novelas cumprem esse papel.

Bom, mas era de bike que eu estava falando, não é mesmo?! Fiz esses 87km bem tranquila, a estrada era bonita, sem muuuitas subidas, apesar de uns 20km de chuva foi light. Na última quinta-feira foi feriado aqui, sabia de uma trilha de mtb que teria em Etalle, na Bélgica, a 30km de Longwy. Porém, dessa vez não teria a facilidade da carona dos amigos que iriam pedalar na estrada em Metz.

Decidi que poderia me virar sozinha, já que a distância não era assim tão grande. Pedi pro Allain me mostrar o caminho e na quarta-feira fizemos ida e volta de Etalle, 63km, caminho fácil de se achar, mas tive que prestar muita atenção, pois aquele meu vício de se perder sempre dá um jeito de me fazer andar em círculos.

Quinta-feira despertador tocou cedinho, dei aquela enrolada básica e 7h já estava de pé para a minha aventura em Etalle. De fato, quase me perdi no caminho, mas no fim me achei facinho. Durante o trajeto ví várias pessoas com suas bikes no bagageiro do carro indo pra mesma trilha e eu ali penando com a minha mtb na estrada, deu até vontade de pedir uma caroninha. Depois que a gente se acostuma com uma speed na estrada, com aquelas rodas enormes, é complicado ir pro asfalto com uma mtb, é um “pedala, pedala e não anda”.

Mas enfim, chegando lá já um pouco cansada depois de 31km, fiz a minha inscrição para os 22km, pra não abusar, mas caso a trilha fosse tranquila seguiria adiante nos 35km. O pessoal caprichou, colocou uma largada como nas competições, me senti quase uma atleta (jura!!!!). Entramos na floresta, até então tudo plano, sem subidas nem descidas suicidas como as que peguei em Arlon. Percurso muito agradável, tudo flechadinho, pura curtição. Estava quase nos 20km quando cheguei no “ravito” que é onde paramos pra comer e beber, tudo incluído na minha inscrição de 3 euros, vejam só que maravilha!

Percebi que não estava cansada, muito pelo contrário, não queria que aquela trilha terminasse tão cedo, resolvi ficar para os 35km. Aí é que veio o verdadeiro desafio. O que era plano se transformou em subida, e que subidas, infindáveis. Sobe, sobe, sobe, e barro pra todo lado, já que havia chovido quase toda a semana.

Mesmo que as lombas tenham dado trabalho, foi tudo muito gratificante, cada vez que entro numa dessas trilhas saio com a alma lavada, pedalar na natureza é o que há!!! Cheguei da minha aventura feliz da vida, de volta ao clube de Etalle. Os belgas já estavam todos lá, reunidos brindando com muita cerveja, como sempre. Eu tinha uma carona arranjada com um conhecido dos pedais na estrada, o Franc, um belga super camarada, me encontrei com ele e sua família na confraternização de final de randonnée e garanti minha volta pra Longwy tranquila, sem ter que pedalar mais 30km.

O pessoal como sempre é muito caloroso e acolhedor, esse clube de bikers foi um achado e tanto, as vezes salvam a minha estadia aqui, pois como todos sabem, a Europa é um paraíso quando se está de férias viajando tranquilo, morar são outros quinhentos, nem tudo são rosas.

Sexta foi dia de folga dos pedais, já que sábado teria um casca grossa. Fiquei com a Christelle a manhã toda, a Sophia foi no dentista com a maman, é impressionante como quando ela está sozinha comigo vira um anjinho, quem dera fosse assim sempre. Almoçamos fora, resolvi umas pendências e fechei o dia com uma bela pizza 4 queijos assistindo um dos meus filmes prediletos: into the wild.

Sábado o pedal foi forte, 115km em Luxembourg, com um desnível de 1400 metros, como dizem os franceses: ohlálá!!! esse foi duro. Meus primeiros 100km de bike com subidas que exigiram muito do meu poder mental pra não desistir, aproximadamente 6 horas de pedal num frio dos mais xaropes, embora a paisagem nos recompensasse a cada instante, o pedal pareceu tão longo que eu tinha a impressão que a qualquer momento avistaria a Usina do Gasômetro.

O pior é que me dei conta pela primeira vez que a velha bike de guerra que o Allain me emprestou já se mostrou fraca pra esse tipo de pedal com muito sobe e desce, fazia tanto barulho pra trocar a velocidade que parecia que a correia ia saltar fora, e olha que cuidei pra fazer nos momentos mais precisos possíveis. No fim, completei o percurso sem grande cansaço e com o fator extra de ter a bike mais velha de todos que estavam lá, é assim que se começa! O engraçado é que durante o pedal eu tive momentos de extremo mau-humor, pensando, “onde é que eu fui me meter?” e com pouquíssima paciência pros assuntos intermináveis do Allain, gosta de falar esse francês, mon dieu!
Nas lombas eu ali penando e ele de bla blá blá, desafio para a calma da brasuca aqui! Só tive que largar um “te concentra na subidaaaaa!!!!%@#§”

Foi um belo treinamento, depois desses 115km sem mortos nem feridos nem dores, sei que sou capaz de ir bem longe em cima de uma bike…aliás, falando nisso, se a Nossa senhora das duas rodas bem quiser, em breve estarei partindo para a randonnée do século, veremos!

Pra terminar uma música que traduz bem como me sinto pedalando entre toda essa natureza das selvas belgas!

Minha sombra corre comigo
Sob o enorme sol branco
Minha sombra vem comigo enquanto nós deixamos tudo
Deixamos tudo para trás

Vozes súbitas no vento
E a verdade que elas estão contando
O mundo começa onde a estrada acaba
Observe-me deixar tudo para trás
Para trás
A riqueza dos bolsos vazios
O amor vai criar uma sensação de riqueza

Mi manchi di parole

A minha ausência aqui teve um motivo especial: talvez o post mais longo da história desse blog. Se tiveres bastante paciência e os meus relatos forem envolventes, chegarás até o fim, senão, já valeu pela tentativa. Me perguntei  pelos motivos que me levaram a escrever tanto, foi uma maneira de reviver os momentos lindos que passei nesse país, as pessoas especiais que conheci, as experiências que vivi, então: senta-te e prepara-te.

Uma musiquinha pra entrar no clima e acompanhar a leitura, caso interesse:

Entre suspeitas vulcânicas e uma certa aflição parti para a Italia no último dia 22. Estive bem atenta a todos os sinais do universo para essa viagem, ainda em Montpellier, acompanhei as notícias do caos aéreo e só pensei: Será que terei as minhas férias na Italia? Bom, se é pra ser, será!

Na volta de Montpellier, a primeira coisa que fiz foi olhar o site da Ryanair pra ver o status do meu vôo, surpresa: todos os vôos cancelados até quarta-feira, o meu era quinta! Um sinal positivo…foi por pouco! Dia seguinte, mais uma olhadinha básica no site: Vôos de quinta-feira cancelados até 13h, por um fio de cabelo! O meu era as 19h. Estava parecendo que era pra eu ir mesmo.

Na quarta-feira, a Carole, como sempre muito atenta me enviou um e-mail durante o dia: Tu já pensaste na possibilidade do teu vôo da volta ser cancelado? Juro que não tinha pensado, imagina ficar presa na Itália? Pensando por um lado não seria má ideia, mas a hora que os euros acabassem não teria mais graça! Ainda muito ligada (para a minha sorte) a Carole faz uma outra observação muito importante: Mas tu pegas o teu vôo em Bruxelas ou Charleroi?

Eu eu no ponto alto do meu sul-americanismo, nem sabia que Charleroi era uma cidade, jurava que era o nome do aeroporto, já que no site da cia aérea estava marcado “Bruxelas-Charleroi”. Resultado: menos de um dia antes do vôo fiquei sabendo que por pouco eu não ia no aeroporto errado, espertíssima, não? Eu achava que sabia tudo sobre programar viagens! Então, confusões desfeitas, programação ok, check-in online feito, micro-mala feita, cheguei no aeroporto bem tranquila, apesar da confusão que estava lá, ainda por conta dos últimos acontecimentos e milhares vôos cancelados. Entrei na área de embarque adiantadíssima, pronta pra alguma surpresa de última hora, só acreditaria que iria realmente pra Itália quando estivesse voando.

E assim foi, em pouco tempo estava sobrevoando os alpes, que visão! ver as montanhas cobertas de neve lá do alto foi um privilégio, sorte que o piloto fez a gentileza de alertar, senão eu não nem teria percebido. Poucos dias antes de partir conversei com algumas pessoas e comentei que estava indo pra Italia, todos me perguntavam: Vais com quem? Sozinha! Eu nem estava me ligando que iria de verdade sozinha, estava sendo tão natural…Mas tenho que admitir que quando “realizei” sobre esse fato, pensei: É mesmo, estou indo sozinha…não seria a primeira vez que eu faria isso, mas não me encontraria com ninguém, não teria nenhum contato e não estaria tão perto assim da minha casa francesa.

Firenze belíssima
Finalmente aterrissei em solo Italiano, dessa vez em Pisa. Já era bem tarde quando cheguei, segui as indicações para comprar o bilhete do trem e mais uma surpresinha: trem em greve. O que eu faço? Única solução: esperar quase duas horas e pegar um ônibus. Ok, mas será que o dono do albergue vai me esperar? Depois de dois trens, um ônibus o avião e mais um ônibus cheguei em Firenze, bastante cansada, perguntei pela rua que deveria ir e segui pela madrugada italiana, na metade do caminho perguntei novamente dentro de um hotel e acabei ganhando um mapa. O meu albergue era numa ruazinha que mais parecia um beco, cheguei na tal da Via del Sole e não achava o número 5, ái que agonia! até que ouço uma voz que parecia vinda dos céus: Shana?! Sim, sim, esse é o meu nome, sim! Alívio total, não iria dormir na rua. O dono do albergue estava lá me esperando, super simpático e disponível, aliás esse foi o único ponto positivo do albergue além da localização, o resto nem vale a pena comentar, realmente foi limite de desconforto, e olha que eu não sou “fresca” pra essas coisas.

Mas o que realmente importava é que eu estava em Firenze e instalada, pronta pra dormir e no outro dia estar de pé cedinho pra curtir a Galeria Degli Uffizi. Com tempo de sobra pra me perder bastante no caminho, peguei o rumo do museu, já com a minha reserva feita pela internet, dica dada pelo amigo Marcus, aliás, dica preciosa, tinha uma fila de dobrar a esquina quando cheguei, passei na frente de todos e não esperei nem cinco minutos.

Entrei no templo de arte florentina e tive que segurar o queixo pra ele não cair, senti o corpo todo mole, de tanta coisa linda junta, do chão ao teto, pra onde quer que olhemos, até pelas janelas, onde damos de cara com as águas do Arno. Estava chovendo bastante, ao menos eu estaria muito bem abrigada até o começo da tarde. A expectativa era a sala de Sandro Boticelli, com suas obras mitológicas, fui indo de sala em sala, babando muito, e pensando, uma hora eu vou achá-lo, mas continuei tendo uma surpresa mais linda que a outra e nada de Boticelli, Ah, quer saber?! vou a caça de Sandro! Pulei algumas salas e o encontro aconteceu. Lá estavam o Nascimento da Vênus e a Chegada da Primavera, exuberantes, entre outras várias. É um dos meus pintores preferidos, tem uma originalidade e delicadeza ao representar os corpos, os rostos, as expressões.

Já faz alguns dias que estou enrolando pra terminar esse post, estou com a mesma sensação de quando escrevi sobre Paris, tão difícil de explicar, mais fácil sentir, mas não posso deixar de compartilhar com vocês o que senti lá, então vou seguir tentando: Saindo da galeria Uffizi, encarei um dia de chuva em Firenze, estava super cansada, havia caminhado por horas entre todas aquelas obras de arte magníficas. Pit-stop no hostel, mapa em mãos, guarda-chuva, capa de chuva…Estou na Italia, não posso me deixar abater por uma chuva!

Passeei por tudo na cidade, sem máquina fotográfica, isso foi uma experiência interessante, a câmera está quase virando uma extensão do meu corpo, mas estava impedida de tê-la comigo por conta da chuva, então o jeito foi fazer as fotos com o olhar e guardá-las na memória natural, com a esperança que no outro dia o Sol viesse pra eu poder fazer as fotos de verdade. Fui seguindo o meu instinto, olhando no mapa e escolhendo aleatóriamente onde ir. Por mais que o meu otimismo fosse muito grande, estava começando a ficar nostálgica demais com toda aquela chuva, não estava chovendo forte, embora parecesse interminável…Mais uma parada no albergue depois de algumas horas de caminhada, resolvi ser mais objetiva, programei uma volta até a Piazza Michelangelo, relativamente longe a pé, de onde teria uma vista de toda a cidade. Me livrei do máximo de coisas que podia, a essa hora o meu mapa já estava dividido em 4 pedaços, todo molhado.

La fui eu, andando pela margem do Arno, nos fones muita música italiana pra entrar no clima e quebrar um pouco do cinza que estava no ar. Funcionou perfeitamente, por mais que estivesse sozinha, me sentia em companhia da própria Italia, como diz a Soninha, da Bella! Peço emprestadas as palavras do toscano Jovanotti para definir melhor essa questão: Io lo so che non sono solo ache quando sono solo!(Eu sei que não estou só mesmo quando estou só.) E foi assim que me senti na Italia.

Valeu a pena cada passo pra chegar naquela praça, já era noite, o caminho cheio de árvores, muito charmoso, chegando no alto, realmente se vê toda a cidade, iluminada, nem sei quanto tempo fiquei lá, foram realmente belos momentos. Já estava decidida a voltar lá antes de deixar Firenze, mas durante o dia, para conferir as duas versões da paisagem (as fotos são da segunda ida até a praça, no dia seguinte).

Segui novamente pro centro, já estava me perdendo menos na cidade. Mesmo que já fosse tarde eu não tinha vontade de ir pro hostel dormir. Entretanto, depois de ter pego chuva o dia todo, uma ducha quente cairia muito bem…só pra “melar” o que até aquele momento estava sendo pura alegria, começo a tomar meu banho e em 30 segundos a água fica gelada. Na porta do banheiro havia um aviso: Banho quente 24h por dia, foi nessa hora que entendi o “gelado” que alguém escreveu de caneta ao lado da palavra “banho”.

Bom, mas não iria me abater por isso, saí da minha ducha bem acordadinha, encontrei com o meu novo companheiro de quarto, até então estava sozinha. Era um alemão, não falava muito inglês, tentou trocar umas palavras comigo mas não deu certo. Tive um estalinho na hora que o vi…”Acho que esse cara ronca…”Deixei bem à mão meus tampões, seria o momento de testá-los. Para finalizar o belo dia, deixei meu colega alemão no quarto e fui tomar um vinho no bar da frente do hostel (pra quem não está por dentro do sistema de albergues de juventude, alguns quartos são separados por sexo, outros não, enfim, nesse caso eram 4 camas no dormitório misto).

Tomei um vinho bem tranquila no barzinho, me ajudou a relaxar ainda mais e ficar pronta pra dormir e encarar o meu segundo dia em Firenze. Não precisou chegar no quarto pra ter certeza sobre o meu palpite sobre o tedesco, nem deu tempo de me estressar, coloquei meus tampões, meu pijama e os roncos ficaram a quilômetros de distância. Bem cedinho o meu colega deutsch já estava de pé, fazendo bastante barulho, acordei junto e já fui me preparando piscicologicamente para a giornata.

Já sabia mais ou menos o que fazer, dessa vez sem chuva, menos mal! Repeti vários lugares, fui em outros novos e pensei em algo pra fazer no domingo. Dei uma passada no escritório de turismo pra pegar umas dicas de como seria melhor visitar as cidades vizinhas, de ônibus ou de trem, me indicaram uma agência de viagens de ônibus e lá fui eu verificar as possibilidades para o domingão.

Fiquei um bom tempo discutindo com a ragazza que trabalhava lá, muito atenciosa, me explicou tudo e decidi comprar um tour de um dia em Siena, San Gimignano e Chianti, com direito a degustações dos produtos clássicos da Toscana. Eu sempre fui um pouco preconceituosa com relação a esses tours, curto um turismo mais aventureiro, independente, mas não seria má ideia mudar um pouco, não pensar muito onde ir, não me perder, só seguir. O preço era atraente e também teríamos bastante tempo livre sozinhos, guia mesmo só em Siena. Ainda na agência encontrei uma francesa muito simpática, que pensou que eu também era francesa, pois estava gastando o meu italiano basiquíssimo com a atendente, talvez tenha falado com sotaque francês. No fim acabamos combinando de se encontrar no dia seguinte, uma iminente parceria para o tour.

Continuei meu dia com todo gás, aproveitando cada momento de sol, feliz da vida. Para terminar, fui conferir o museu da fotografia de Firenze, não estava levando muita fé, mas acabei dando de cara com uma bela aula de história da foto, muitas câmeras antigas e um arquivo de respeito, com muitos nomes da fotografia mundial como Arbus e Cartier Bresson. Não posso deixar de citar outro belo e encantador lugar de Firenze, a Piazza de la Signoria, onde reina absoluto o Perseu de Cellini, a única escultura negra de toda a praça. Foi  um dos lugares por onde mais passei, é lá que se encontra também o David de Michelangelo, não o de verdade, mas uma cópia fiel, o verdadeiro está na Galeria da Academia. Como blog também é cultura, conversando com a Florence, a francesa da agência de viagens, descobri que:

“Michelangelo levou três anos para concluir a escultura (começou-a em 1501 e concluiu-a em 1504[1], revelando-a no dia 8 de setembro). Antes de Michelangelo receber a incumbência dessa obra, o bloco de mármore de carrara que ele usou havia ficado exposto ao tempo por 25 anos no pátio da catedral de Santa Maria Del Fiori. O bloco foi danificado a ponto de diminuir de tamanho. Outros escultores já haviam recebido a incumbência da obra mas, por razões diversas, eles não se interessaram. Esse bloco foi rejeitado por grandes mestres como Duccio, Baccelino e Roselino. Michelangelo é considerado nesta obra uma espécie de inovador, pois retrata a personagem não após a batalha contra Golias (como Donatello e Verrochio antes dele fizeram), mas no momento imediatamente anterior a ela, quando David está apenas se preparando para enfrentar uma força que todos julgavam ser impossível de derrotar.”

Giornata finita, voltei para o albergue cansadíssima e satisfeita, só pensando, será que terei colegas de quarto hoje? Sim, um casal de chilenos queridíssimos, foi uma pena não tê-los encontrado antes. Estão morando na alemanha, fazendo intercâmbio universitário. Conversamos muito, trocamos contatos, dicas sobre a cidade, nossas impressões sobre a Europa. Esse papo serviu para soar um alerta para mim, tenho que me ativar a aprender espanhol pra ontem, o portuñol realmente não dá pro gasto e me sinto muito estranha falando inglês com gente da américa do sul. Aproveitei o clima dos amigos que disseram que precisavam descansar e fiz o mesmo, pois no outro dia estaria novamente cedo de pé para fazer o meu tour.

San Gimignano, Siena e  Chianti, una bella giornata

Cheguei na estação do ônibus e encontrei a Florence. Ela mora no sul da França e é professora de história e geografia, realmente uma querida, como boa geminiana (suspeitei desde o princípio) era muito tagarela, falamos pelos cotovelos nessa viagem, nem sei como conseguimos achar tanto assunto. Me fez muito bem deixar a confusão da cidade e passear pelos campos da Toscana rodeada pelos ciprestes (árvores tradicionais da região, antigamente sinal de status e também tradicionalmente plantadas perto de cemitérios, pelo seu tamanho, acreditava-se que elas levavam as almas até os céus).

A primeira parada foi em San Gimignano, a cidade das torres, hoje em dia restam só duas que medem aproximadamente 80 metros, na época da sua construção as famílias ricas erguiam torres em sinal de poder, quanto mais rica, mais alta a torre, porém à medida que as falências e brigas políticas ocorriam, as torres foram sendo destruídas. Mais uma enxurrada de turistas, uma praça central muito simpática com um poço, onde se podia imaginar a vida que as pessoas levavam lá, tem que fazer um esforço para usar a criatividade, apagar o burburinho turístico, as lojas de souvenirs e tentar visualizar a vida ali a alguns séculos atrás.

Reingressamos no ônibus e seguimos para o nosso segundo destino, Siena. Lá encontraríamos a nossa guia. O restante do grupo chegou e foi almoçar, eu e a Florence aproveitamos para ter mais tempo livre na cidade. Andamos pelas partes onde não iríamos com a guia, conversamos bastante, comemos um sandwiche típico da região sobre um sol muito agradável e reencontramos o grupo já com a guia. Pelo sotaque tenho quase certeza que ela era inglesa, e também que ela deve ter tentado a carreira de teatro antes de ser guia, pois tudo era muito dramatizado, bem engraçado. Começamos pela catedral de Santa Catarina de Siena, onde tem o crânio dessa santa que fez muito pela cidade, apaziguou guerras, evitou invasões e etc.


De lá fomos seguindo por bairros, aprendemos cada história, conhecemos a rivalidade entre Florença e Siena, é uma cidade muito bonita, mas a apoteóse é realmente na praça central, onde ocorriam os chamados Palios, as corridas de cavalos. O nosso tour também dava direito a entrar no Duomo, que é a igreja central da cidade. Deslumbrante, muitos mosaicos, um púlpito incrível, o contraste branco e preto do mármore, realmente uma aula. Foi lá que descobri que no nosso tour havia mais dois brasileiros, cariocas bem simpáticos.

Sempre na companhia da Florence, saí do Duomo e me sentei nas escadarias para ir me despedindo de Siena. De lá partimos para um pequeno vilarejo, onde conversamos com a Davina, uma canadense super gente fina que estava no nosso grupo. O dia já estava quase no fim e ainda faltava ir até Chianti. Dentro do ônibus tivemos uma aula sobre a produção desse vinho, a uva, os percentuais de ingredientes para ser um verdadeiro Chianti e etc. Chegamos numa fazenda de produção ecológica dessa variedade de vinho, fomos muito bem recebidos pelo afortunado dono desse lugar, que paraíso na terra!

Entre olivais e parreirais conhecemos a história da fazenda, os produtos e partimos para a degustação. Começamos provando a produção de vinagre balsâmico, eu achando que iria provar algo ácido, estava redondamente enganada, era um vinagre de 33 anos de evaporação, tinha uma textura de caramelo, realmente muito bom. De lá seguimos para a parte dos vinhos e quitutes da fazenda, o grupo era separado entre os japoneses, um casal, que ficavam com os franceses, o restante era uma mistura de nacionalidades, mas era dos que entendiam em inglês. Tentei ficar no grupo do inglês, pois o dono da fazenda falava melhor inglês do que a sua colega que tentava traduzir pro francês, mas no fim os lugares estavam esgotados e acabei ficando com os francófanos, o que foi uma sorte, pois éramos um grupo bem mais reduzido com uma vista privilegiada dos campos, onde degustamos torradinhas com o mais puro óleo de oliva e diferentes vinhos. Muito chique mesmo, não?! Me senti praticamente no Olimpo, muito bem acompanhada pela francesada e pelos japas. Depois de todos os vinhos e iguarías, foi a vez de coroar o bolo com a cerejinha, ou seja, provar o famoso sorvete com vinagre balsâmico. Segundo o dono da fazenda, quando se oferece esse tipo de combinação a um amigo o que se ouve é: Tu és louco! Entretanto, depois que ele prova, o comentário é: Quando vais me convidar novamente? Foi com essa promessa que provamos o tal sorvete. Realmente ele não exagerou, é um gosto muito particular e inesquecível, só de escrever já dá água na boca, mas vejam bem, não é qualquer vinagre balsâmico, era um super envelhecido e puro, segundo o que aprendemos, se é pra comprar qualquer um, é melhor comprar vinagre de maçã, normal.

Hora de voltar para Firenze, depois de um dia pra lá de especial. Chegamos na estação de ônibus, a Florence ainda me acompanhou quase até o hostel e na Piazza Santa Maria Novella nos despedimos, foi uma companhia muito agradável.Voltei para o albergue, dessa vez os colegas de quarto eram americanos, acho que uns 4, bem comunicativos, aliás, como todos os americanos que já conheci. Era a minha última noite em Firenze, não poderia ir embora sem me despedir dos meus lugares favoritos. Sem precisar pensar muito fui até a Piazza de la Signoria e fiquei lá aproveitando aquela noite agradável e admirando o Perseu, não sou daquelas de ficar horas parada na frente de obras, mas essa conquistou meu cuore. Minha comtemplação foi interrompida por um algeriano que estava afim de conversar e me acompanhar pela cidade, mas eu já estava muito bem acompanhada por Jovanotti nos fones de ouvido, não precisava de mais nada. Fiquei ali mais um pouco, andei pela praça e segui pela margem do rio, que difícil deixar essa cidade, quase chorei na hora de ir embora pro albergue, será que um dia voltarei lá?

Quem tem boca vai a Livorno

De volta à realidade, tive que aceitar o fato de que era preciso ir embora. Segui para o albergue, tudo pronto para o próximo dia. Me instalei no meio dos americanos e não foi difícil dormir. As vezes me sinto muito bizarra dormindo no meio de um monte de gente desconhecida, mas o lance é desencanar meeeesmo, nem da tempo de achar muito estranho e eu já estou podre dormindo. Dia seguinte, malas prontas para ir para Livorno. Eu deveria escolher um lugar pra ir, pensei em algo bacana mas não muito turístico, foi assim que elegi Livorno, além de ter praia, o fator que mais me atraíu. Simplesmente comprei o bilhete, nem pensei muito, depois daquele tour com ônibus, guias e etc, precisava de um pouco de improvisação, além disso, era perto de Pisa, meu último destino e onde eu pegaria o vôo de volta.

A surpresa foi que indo pra estação encontrei a Davina, a canadense, ficamos ali conversando até os nossos trens chegarem, trocamos contatos e descobri que ela é designer de superfície, algo que eu gosto bastante, ela estava indo pra Veneza. Entrei no trem, a medida que me aproximava de Livorno o trem ia ficando vazio, só pensei…será que Livorno é legal mesmo? Agora que já estou aqui, vou até o fim. Sem mapa, sem saber o que fazer e sem onde deixar a minha mala cheguei em Livorno. Um turismo “arriscado” mas nem tanto, se eu não gostasse era só pegar o trem e ir pra Pisa na segurança do meu albergue já reservado. O dia estava lindo, isso me deu toda a iniciativa de descobrir a cidade, faltava a cidade me receber com a mesma vontade que eu estava de explorá-la.

Chegando na estação, fui em direção aos armários para guardar a mala, fiquei toda empolgada com a existência deles, meu primeiro problema estaria resolvido, mas quando cheguei lá, surpresa: armários enferrujados e quebrados, é; não foi desta vez. Comecei a rodar pela estação, dei uma olhada num mapa, descobri que no centro da cidade tinha um escritório de turismo. É o melhor lugar pra ir quando se chega numa cidade totalmente estranha, onde não se conhece ninguém e as pessoas não parecem muito dispostas a ajudar. Pedi umas informações na estação, descobri que o centro da cidade era longe, como não tenho medo de caminhar, fui indo, no caminho achei alguns albergues e tentei deixar a minha mala, sem sucesso continuei com a mala mesmo. Até então eu só ouvia NÃO dessa cidade, mas já estava lá, o mar não deveria estar longe, não iria ceder.

Depois de muitas informações que pedi na rua, finalmente cheguei no tal escritório de turismo, finalmente escutei um SIM! Super atenciosos e falavam inglês, mas tenho certeza que só consegui chegar até lá graças ao meu italiano básiquíssimo, pois durante o caminho, no english baby. Então aí fica a dica, antes de ir pra qualquer país, aprenda pelo menos algumas frases de segurança, tais como: Onde estou, como vou pra tal lugar, por favor, obrigada, com licença, desculpe, quanto custa…São palavras mágicas que podem mudar tudo e fazer da sua viagem um sonho ao invés de um pesadelo, pois a disponibilidade dos locais muda totalmente quando eles vêem que fazemos o mínimo esforço para nos comunicarmos na língua deles.

Ganhei meu mapa, até então durante o caminho haviam tentado me vender um por 7 euros, jamais! Peguei várias dicas sobre a cidade e nem precisei pedir pra deixar a minha mala lá, como estava pensando em fazer, eles mesmos se ofereceram para guardá-la. Finalmente, depois de uma certa angústia a cidade se abriu pra mim e pude vê-la com outros olhos, lição aprendida: não desistir ao escutar o primeiro NÃO. Estava orgulhosa de mim mesma. Mais uma caminhada básica e encontro o mar, muitas gaivotas, barulho típico de porto, barcos pra todos os lados e…..: um barulho ensurdecedor de scooters(na espiada que dei no guia da Florence era mencionado isso). O pessoal de Livorno curte mesmo scooters, na verdade eu já havia percebido que na Italia o povo aderiu mesmo às “motinhas”, mas em Livorno a moda está no seu ápice. Aliás, falando em moda, se você quer chegar na Italia e ficar na moda, não pode deixar de lançar mão de um belo e bufante echarpe, óculos solares bem estilosos e um penteado maneiro, a scooter complementa o look!

Explorei as fortalezas, o porto, apesar de toda a confusão pra chegar até lá, ver o mar e ficar ali naquele sol quentinho era muito recompensador. Estava sentindo calor e estava na praia, ótimo. Fui seguindo o mapa com as dicas do pessoal, a meta era chegar na beira da praia e fazer um percurso que o mapa indicava como encantador e blá blá blá. Caminhei, caminhei, pausa para um gelato (sorvete), tem que dar o braço a torcer, o sorvete italiano merece a fama que tem. Chegando no ponto onde deveria começar a tal caminhada, tudo barrado, fechado para obras. Legal hein!

Por mais que estivesse cheia de força e de resistência aos obstáculos apresentados até ali, resolvi dar meia-volta e não pensar em outra solução, depois de três dias caminhando sem parar, começava a me dar conta que tinha pés e que eles estavam começando a ficar doloridos com a média de 12 horas de caminhada por dia. Voltei até o escritório de turismo, recuperei a minha mala e na mesma praça peguei um ônibus até Pisa.

Pisa e a estrangeirada

Em Pisa é bem fácil de se achar, indo reto, sem problemas cheguei no meu albergue. Quanta felicidade ao chegar lá, era quase como chegar em casa. Comparado ao meu albergue em Firenze, esse de Pisa era 5 estrelas. Desde que havia chegado na Italia não tomava um banho descente. Lá ganhei até toalha, ducha quente, banheiro impecável, grande, bonito. No quarto cobertas limpinhas. Fui me instalar e de cara encontrei a minha primeira companheira, uma senhora inglesa simpatissíssima, a Alisson, muito querida mesmo, parecia um anjo, bem magrinha, cabelo cacheado totalmente branco e se vestia toda de rosa e branco com uma voz doce e um sotaque inglês belíssimo, estava quase certa de que ela poderia se transformar em fada a qualquer momento. Fiquei impressionada por ela achar que eu era americana, mas ficou super animada ao saber que eu era brasileira, descobri que ela queria visitar Livorno, pois um poeta inglês que ela adora havia morado na cidade, com todo prazer dei meu mapa à ela e todas as dicas possíveis. Senti que fiz uma boa ação, uma turista a menos perdidade em Livorno.

Tomei o meu banho, ah e que banho fantástico. Eu era a alegria em pessoa, bons albergues realmente são fundamentais para o sucesso de uma viagem. Os encontros não pararam por aí, Pisa foi a cidade das pessoas legais. Dessa vez conheci a Julia, uma australiana. Conversamos bastante e combinamos de jantar juntas. Até então eu vinha economizando bastante, até na comida, com o pretexto de que comer sozinha num restaurante não tem muita graça, e não tem mesmo. Eu havia investido em restaurante um só vez até então e me arrependi amargamente, pois a pizza não era grande coisa, não era barata e tive que pagar 2 euros a mais para comer lá. Outra dica: se você está numa cidade agradabilíssima, com praças cheias de esculturas e natureza, compre sua pizza, ou o que for e coma na rua. Não vale a pena pagar mais para comer dentro de um restaurante. Eu já sabia disso, mas não sei porque, dessa vez achei que não cobrariam, big mistake!

Voltando à Pisa…fui ver a única atração oficial da cidade, a praça onde fica a torre. A cena clássica em Pisa é ver todos posando como se estivessem empurrando a torre ou segurando. Tem gente que faz isso mesmo antes de chegar perto da torre e admirá-la. O Duomo de Pisa também é lindo, é uma cidade muito agradável e acolhedora. Dei umas voltas pela praça, pelo centro, curti o visual da torre, e resolvi voltar para o albergue. Já estava anoitecendo e eu estava afim de finalizar a minha viagem na Italia em grande estilo, comendo bem e tranquila num restaurante, sem me preocupar com horários e etc.

Como dito, a Julia estava lá no hostel pronta para o nosso jantar, saímos a procura de algo e encontramos um restaurante pequeno e charmoso, achei melhor nem me preocupar com o preço, mas estava com créditos por ter economizado até aquele momento. Escolhi um belo prato de massa com frutos do mar, tomamos um vinho e conversamos muito. A Julia me contou várias coisas, o que ela estava fazendo na Italia por exemplo. É impressionante, não é a primeira nem a segunda pessoa que eu conheço que está viajando para mudar os ares, porque está insatisfeita com algo, quer mudar alguma coisa na vida. E não é que funciona mesmo?! Desandamos a falar de coisas bem subjetivas e meu inglês começou a dar na trave, aí começo a pensar em francês, confundir, um caos! Disse que ela deveria ser paciente e ela foi, tive a sorte de conhecer uma pessoa muito bacana, vinda de um lugar extremamente longe, de uma cultura completamente diferente da minha, bela experiência, deu até vontade de conhecer a Austrália.

Depois do jantar agradabilíssimo, voltamos para o albergue, o barulho na rua era forte, muita festa. No outro dia eu teria que acordar relativamente cedo, me preparar para ir para o aeroporto, precisava descansar. Embora, Pisa ainda tinha coisas para me mostrar, não é minha culpa, eu queria dormir! Do meu lado no quarto, uma nova hóspede do hostel. Na maior cara dura, com a mulherada tentando dormir, ela saca um laptop e começa a teclar no msn. Fazendo um barulho muito chato com as teclas e iluminando o quarto com o monitor. Eu pensei em várias frases para dizer, mas possivelmente acordaria quem tivesse conseguido dormir. Ao mesmo tempo começava a ter uma sede desértica por conta dos frutos do mar que havia comido no jantar. Quer saber? vou sair fora desse quarto e tentar encontrar uma garrafa d´água.

Saí e fui recepcionada calorozamente por dois alemães que comiam um salame na recepção. Dois malucos, cheios de Chianti nas cabeças. Eu disse que só queria uma água, se eles sabiam onde eu poderia comprar, como mágica um deles faz aparecer uma garrafa, aceitei e agradeci. Na verdade deu pra ver de cara que eles eram dois palhações, muito engraçados e agradáveis. Nessa hora eu já estava completamente sem sono, expliquei que no quarto não conseguia dormir por conta do barulho de uma das hóspedes, o Christian, um deles, disse que ia entrar no quarto e pedir pra ela parar de fazer barulho. Disse que ele era louco, que não poderia fazer isso, mas não é que ele fez?!

Foi aí que o Jan, o outro alemão, começou a cogitar a ideia de sairmos pra tomar um vinho. Já era bem tarde, eu disse que não, já estava de pijama, não iria sair aquela hora. Ele começou a dizer eu que estava viajando e tinha que aproveitar as férias. Totalmente sem sono, comecei a achar que ele tinha mesmo razão. Peguei as minhas roupas que já estavam prontas pro dia seguinte e acompanhei Christian e Jan nas profundesas da noite Pisana. Chegamos no bar que ficava no piso térreo do mesmo prédio que o albergue, mas ele já estava fechado, lá conhecemos um italiano que “se ofereceu” pra nos levar em um bar que ainda estava aberto. Chegando lá, compreendemos a sua generosidade quando ele nos pediu uma cerveja pelo serviço prestado. Encontramos mais um italiano e no fim éramos um grupo de 5, eu, os alemães e os dois italianos. Uma bela confusão idiomática cultural regada a uma garrafa de Chianti, o vinho tem poderes mágicos de fazer com que todos pareçam se conhecer a anos, tenham muito assunto e desinibição pra conversar. Muito assunto depois, garrafa terminada, hora de voltar para o albergue. O nosso guia que nos levou até o bar se despediu e foi para um lado, o italiano que se juntou à nós no bar nos acompanhou até o hostel. Chegando na praça do nosso prédio ainda ficamos um tempão falando besteira e rindo, além de termos ganhado uma aula do dialeto pisano, só besteira, fiz questão de não memorisar nada, nem estava em condições.

Entramos no hostel e ainda ficamos trocando muitas ideias, contando sobre nossas vidas, eles ainda me convidaram para ir para o Marrocos, iria com prazer se não tivesse que voltar pra França. Mais um contato para a lista! Sempre fico curiosa a respeito da imagem que os estrageiros têm do Brasil, para eles, uma menina brasileira a quase um ano na Europa  viajando sozinha só poderia ser filha de pais ricos. (???) Expliquei que realmente não era o meu caso e também desmistifiquei um pouco da imagem do país pra eles.

Me despedi dos amigos e voltei pro quarto, todos dormiam, mas já eram quase 6 da manhã, ok, tinha uma horinha pra descansar. Cedinho o movimento no quarto começou, ainda na cama, vi que a colega que teclava na madrugada estava tentando se comunicar em espanhol com uma outra inglesa que estava no quarto, da qual o sotaque era tão forte que quase não dava pra entender. Então larguei um “buenos dias“! Não sei baseada em quê, ela perguntou? “Tu és brasileira?” E eu: “Tu és gaúcha?” Sim, de Porto Alegre!

Vejam só, dormindo do meu lado, entre australianas, inglesas e americanas, uma coterrânea de Porto Alegre. Ela comentou sobre o fato de eu ter saído e nem ter visto eu voltar. Tive que dizer a verdade: É que tu estavas fazendo muito barulho com o noteboook e eu não conseguia dormir! Ela ficou na boa, nem se aborreceu. Combinamos de dar uma volta juntas pela cidade antes de eu pegar o rumo do aeroporto. E assim fizemos, conversamos bastante, ela está fazendo intercâmbio em Portugal. Me contou tudo sobre a vida, impressionante essas coisas, acho que estar no exterior causa uma abstinência de comunicação tão forte que as pessoas se abrem na primeira oportunidade.

Ficamos a manhã toda juntas, tomamos café e ela me esperou até eu entrar no ônibus para o aeroporto. Chegando na área de embarque, dei meu papel do check-in online e até aí tudo ok. Mas as emoções ainda não haviam acabado. Na fila para o vôo, atrasado, como quase sempre com a Ryanair, comecei a reparar que todos haviam carimbos nos papéis, menos eu. Achei muito bizarro, mas segui na fila. O avião já estava parado na nossa frente e as pessoas entrando. A fiscal da companhia pegou meu papel e disse que faltava fazer o controle da polícia. Mas como assim???? Entrei na área de embarque e ninguém tinha avisado isso. Não é um procedimento normal, até porque na viagem de ida perguntei se deveria fazer e disseram que não. Saí correndo enlouquecida até o tal do balcão de controle, carimbei meu check-in e voltei pra área de embarque. O único problema foi que tive que fazer todo o procedimento novamente, detector de metais e etc, dessa vez decidiram até medir a minha mala, que estava um pouco gordinha demais. Mas tive que ser bem incisiva e dizer que estava prestes a perder o avião e que já tinha feito tudo aquilo. Me deixaram passar e fui uma das últimas a entrar no avião. Ufa, que sufoco! Mas no fim deu tudo certo. Um incrível mal-humor se abateu sobre mim depois disso, pra completar um grupo de adolescentes não parava de gritar, mesmo na hora de decolar, realmente sem noção.  Chegando da Italia fui calorosamente recebida pelas meninas e percebi o quanto estava cansada, mas enquanto ainda estava lá a excitação era tanta que não tive tempo para perceber isso. A Italia me conquistou, me deu vontade de voltar, de explorar, de conhecer. Talvez tenha uma nova oportunidade, veremos o que o universo me reserva.

O título desse post foi “mi manchi di parole”, me faltam palavras, mas pelo comprimento desse texto, elas estão mesmo é sobrando e agradeço se você leu até aqui, sinal que estava interessante.

Arivederci, baci mille!
Fotos da Itália

Terminando em grande estilo com o Toscano Jovanotti

pYcs

Saíram do forno as fotos que a Yentl tirou na nossa viagem, muito charmosas com a sua câmera analógica!
Posto 2 pra vocês conferirem, com destaque para a primeira, o Surya Namaskar Amsterdam


e viva os belos encontros da vida 🙂


Aqui o álbum dessa trip
Muito tempo de ausência depois, cá estou eu atualizando o meu blog, tenho que admitir que peguei uma certa afeição à ele, tanto é que se o deixo às moscas muito tempo começa a me dar uma agonia. Tenho muitas coisas pra contar, como foi dito no último post, estive em trânsito, o mês de abril passou rapido e intensamente. Fica até difícil contar em ordem cronológica, mas vou tentar, não quero deixar de dividir com vocês todas as coisas bacanas que têm acontecido!

A primavera aqui está começando bem bonita, tivemos dias de bastante calor, parecia até um milagre sentir calor aqui, mas já peguei até uma corzinha. As cidades estão floridas, árvores que eu estava curiosa pra saber como seriam fora do seu estado outonal dourado e invernal seco, agora estão frondosas e floridas. Reparei que no ar ficam pairando pequenos raminhos brancos, como daquelas plantinhas que a gente colhe de propósito pra assoprar que eu não me lembro o nome, é pura poesia, realmente coisa de cidade pequena, no caos urbano nem dá pra reparar esse tipo de situação.

Bom, nesse clima parti pra uma longa rota até Montpellier, pra encontrar mais uma vez os queridos Jean Paul e Rolande, que pra mim também viraram um pouco papie et mamie (vô e vó) são tão, mas tão queridos, fazem de tudo pra que todos se sintam bem na casa deles, são muito simpáticos e calorosos.

Se aqui o sol já estava começando a esquentar, imagina lá no Sul da França, já podia usar até calçados abertos (isso foi na segunda semana de abril). Depois de atravessar a França de carro, me distrair vendo placas de caminhões de toda a europa, a mudança das paisagens, os relatos geográficos da Carole, do tipo: nessa região é o vinho tal, aqui é queijo x, aqui nasceu o artista y, finalmente chegamos em Montpellier, bem tarde, direto pro dodô (cama). No outro dia de manhã cedo já estávamos prontas pra explorar as praias, pegar sol, muito sol.

Visitamos as praias do mediterrâneo em volta, como Palavas e La grande motte, fizemos passeios na natureza, andei muito de bike com a Carole pelas ciclovias, me estirei na areia do mediterrâneo, aproveitei muito muito muito. Entre a Carole, as meninas e os avós me sinto realmente em família, é uma sensação muito boa poder ter isso mesmo tão longe de casa. Aliás, casa? é um “conceito” que tem mudado bastante pra mim.

Como estávamos perto de Narbonne, onde mora o irmão da Carole com sua família, não podíamos deixar de visitá-los. Em um dia de muito sol e calor, fizemos mais ou menos 150km de carro até lá. Na verdade não fomos em Narbonne, mas sim num vilarejo do lado, onde eles moram. Lá a paisagem muda bastante, na região de Montpellier é tudo mais rico e florido, na região de Narbonne, apesar de ter muita vegetação é algo no estilo serrado, mais seco, mais rasteiro, mas não deixa de ser muito bonito.

Andando pelas ruas tive a impressão de estar dentro de um filme do velho-oeste, tudo da mesma cor, casas feitas das mesmas pedras, cor de areia, ruas estreitas quase sem calçadas e construções altas. A família do irmão da Carole me recebeu muito bem, com destaque para Luca e Elisa, os primos de Sophia e Christelle, uns amores. Tenho de admitir que fiquei bem convencida, a Elisa se colou em mim e as pequenas ficaram bem enciumadas, até que a Sophia não aguentou e disse “Tu não vais me roubar a Shana!!!” Ai que dor no coração…só de pensar que em breve estou indo embora e vou deixar essas pitocas…as vezes é duro mas também é muito recompensador.

l'amour des copines
Enfim, almoçamos uma bela raclete com queijo Roblechon, hummmmmmmm, muito bom! feita especialmente separada pra mim sem carne, que queridos, não?! Passamos uma tarde de caminhadas nas redondezas do vilarejo, é tão bacana essa iniciativa que vemos por aqui, é só ter um lugar onde se possa fazer uma caminhada que já se forma um clube, são colocadas sinalizações de trilhas, placas, quilometragem, coisas que os brasileiros deveriam aprender com os europeus. Fiquei só me imaginando com a minha bike ali, poderia fazer belas trilhas com vista para os Pirineus (montanhas que separam a França da Espanha).

No entardecer tivemos que dizer au revoir e partir pra uma visita rápida até Narbonne, foi duro me despedir das crianças lá, principalmente da Elisa, que menininha especial, quem sabe um dia a gente não se reencontra? Narbonne é bem simpática, os nomes das ruas são escritos em catalão e francês, devido a proximidade com a Espanha, estávamos a aproximadamente 130kms da fronteira, até rolou um friozinho na barriga, a Espanha que me aguarde!

Visitamos os lugares principais da cidade, a catedral, os canais, a via romana e pegamos o rumo de Montpellier novamente para voltar pra Longwy no dia seguinte pela manhã. Na hora de partir mais uma despedida dura, será que vou ver papie et mamie novamente? ninguém sabe! Mais ou menos 13 horas de carro depois estávamos em Longwy, apesar de as férias estarem ótimas fiquei feliz de voltar, pois em poucos dias ja seria o meu vôo para a Italia, muitas coisas para organizar!!! enfim, isso é papo pra um outro capítulo.

Fica pra vocês uma cantora que descobri aqui na França, ela representa pra mim a experiência fracesa literalmente, aqui nesssa região é tudo tão misturado que as vezes fica difícil de ver o que é realmente “nacional”.
beijos grandes, boa semana!

RandoRêve*

A alguns posts atrás comentei sobre uma randonnée que eu iria fazer na Bélgica, só pra não deixar o assunto no ar, estou postando aqui algumas fotos desse dia fantástico, 35km de muito barro, descidas alucinantes, subidas desafiadoras, travessias de rios,  muita natureza ar puro e paisagens deslumbrantes. Essa é a Bélgica!!! País de mountainbikers.

Uma vez o Bóris, um amigo do clube de cicloturistas, me disse que os mtbikers eram de certa forma individualistas, se comparados aos espideiros, pude comprovar isso nesse dia. Durante a minha primeira ida na Bélgica, como já postei aqui, tive a companhia de um casal super gentil durante o percurso, mas dessa vez, “mais criada” fui totalmente sozinha e assim segui pela mata, pelas trilhas até o final do circuito. Foi um belo desafio pessoal, uma prova que posso fazer muito mais do que imagino sozinha, bela experiência e a cada pedalada uma satisfação enorme com o visual que a natureza me proporcionou nesse dia. Parei algumas vezes pra fazer umas fotos com o celular, elas não mostram muito do que era o lugar, mas dá pra ter uma ideia.

mais fotos de randos aqui

 *rêve=sonho